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terça-feira, 31 de maio de 2016

O nosso melancólico adeus para Dilma


A saída da presidente já parece irreversível. Não houve exatamente um golpe de estado, mas este processo está longe de ser correto. Apesar de questionar o impeachment, não tenho nenhuma compaixão por Dilma. Ela causou isso a si mesma. Fez uso de qualquer meio para ser reeleita, quebrou o país para alcançar seu objetivo. Não pensou em como governaria depois, muito menos no bem do Brasil. No entanto, sua saída não é um momento para soltar fogos e fazer festa, e sim de reflexão.

Nos últimos 90 anos tivemos 25 presidentes, apenas 4 eleitos democraticamente terminaram o mandato, já excluindo Dilma. Desde a redemocratização, elegemos 4 líderes e tiramos dois deles (Collor e Rousseff). Sendo que FHC e Lula também responderam a processos de impeachment em seus mandatos.

A nossa despedida é melancólica, pois, por mais que o impeachment esteja previsto na constituição, ele nunca é desejável. Quando um governante é corrupto ele tem de ser deposto, porém, temos que nos envergonhar por tê-lo elegido. A lava-jato e a saída de nossa presidente mostram que falhamos de novo. E se não refletirmos sobre o poder do voto, mais “Dilmas”, “Cunhas” e “Collors” irão voltar. Na verdade, Collor já voltou, é Senador por Alagoas.

Os homens que tiraram Rousseff são acusados de cometer crimes ainda piores do que ela. Obviamente, isso não a inocenta, mas mostra o quão perverso este processo está sendo. Mais da metade dos membros da comissão do impeachment, tanto na câmara dos deputados, quanto dos senadores, sofrem alguma acusação criminal.

Nossa caça a corrupção não pode morrer no impeachment. Como já se viu, o buraco é muito mais embaixo. Nós que somos responsáveis por termos elegido tanto “petralhas”, quanto “golpistas”, além de um congresso podre. E se pararmos de lutar agora, ficará claro como a deposição de Dilma não foi um ato contra a corrupção, e sim um embate de poder entre grupos políticos, onde o povo é a última preocupação.

Democracia sem voto consciente não funciona e por isso estamos falhando a mais de um século. Logo, meu adeus para Dilma é repleto de tristeza, não por ela, mas pela nossa frágil democracia.


Leonardo Teixeira - 31/05/2016

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Referências: 
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/so-5-presidentes-eleitos-completaram-o-mandato-em-90-anos
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/03/160329_latimes_impeachment_rm 
http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_perfil_senado_impeachment_if_rm

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Qual é a graça?


No último mês de Março, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista a um programa matinal da rádio Jovem Pan fez alguns comentários sobre a televisão atual, mais precisamente sobre a Rede Globo, onde trabalhou por muitos anos e foi um dos responsáveis pelo chamado “padrão Globo de qualidade”.


Boni no programa Morning Show da Rádio Jovem Pan.
Um de seus comentários me chamou bastante atenção, no qual ele afirma que o “humor da TV brasileira foi para o espaço” e que o grande problema do programa de Marcelo Adnet é que “ninguém entende” as piadas. Fiquei bastante pensativo depois dessa reportagem... Se o humor da TV brasileira foi para o espaço, isso quer dizer que no passado já tivemos humor de qualidade? Se ninguém entende as piadas de um programa nos moldes do Tá no Ar - A TV na TV, isso quer dizer que as boas piadas nos programas de humor na TV aberta precisam ser mais óbvias?

Possivelmente, para tais afirmativas, Boni tem embasamento, afinal estamos falando de um dos grandes nomes da TV nacional, frequentemente ouvido e respeitado por profissionais da área! Entretanto, se pensarmos com calma, podemos lembrar de controvérsias como a manipulação do debate presidencial de 1989, algo que anos depois foi admitido por ele. Bom, talvez isso seja o suficiente para, apesar de sua experiência e talento, não considerarmos suas afirmativas como verdades inquestionáveis.

Antigos humorísticos da Rede Globo e o mais recente e também extinto Zorra Total.

Procurei algumas coisas dos humorísticos do passado, programas como O Planeta dos Homens, Balança Mais Não Cai, Satiricom, Viva o Gordo, entre outros. É inegável o talento desses que construíram a linguagem do humor televisivo que (pasmem!) é utilizada até os dias atuais.  As mesmas piadas e esquetes são praticamente iguais. Quadros criados por nomes como Jô Soares e Chico Anysio são reproduzidos à exaustão até hoje.  A Praça é Nossa é um bom exemplo de como o mesmo formato pode perdurar na TV sem nenhuma novidade: de 1957 para cá, passagem por várias emissoras e o mesmo conteúdo.


A Praça é Nossa: Nenhuma alteração de formato desde de sua estréia na TV Paulista.
Algo perceptível nesses vídeos antigos é a pobreza de seus roteiros, lotados de estereótipos por todos os lados. A mulher bonita e burra, o gay afetado, o negro malandro e caricato, o pobre ignorante, algumas interpretações políticas e bordões: muitos bordões! Esses tipos sustentaram o humor na TV brasileira ao longo do tempo.

Foi nesse momento que tive um insight e fiz uma conexão entre a fala de Boni e o mais novo bordão reacionário das redes sociais: “o mundo anda muito chato!”

Essa frase tem sido repetida inúmeras vezes sempre que grupos sociais oprimidos não aceitam ser alvo fácil desse tipo de humor ou ataques mais sérios. Em entrevista à revista Playboy, Renato Aragão falou da dificuldade de se fazer humor na atualidade ao aludir que negros e homossexuais, por exemplo, não se ofendiam com determinadas piadas. Já Danilo Gentilli, do SBT, diz que há uma “patrulha do politicamente correto”, organizada, inclusive.

Não há como afirmar se as pessoas não se ofendiam como disse Renato Aragão, mas é certo que a consciência e o empoderamento das minorias têm crescido e tomado corpo e voz. Com isso passou-se a enxergar que nem toda a piada tem graça, uma vez que para fazer rir é necessário subjugar o outro.
A grande pergunta que fica é: o mundo está chato porque oprimir está mais difícil?

Esses humoristas, que tanto têm se queixado da dificuldade de fazer humor, precisam se reinventar. Nós precisamos ser mais educados no que diz respeito à lida com o outro. Perpetuar estereótipos preconceituosos não ajuda em nada, ao contrário, contribui para que sejamos cada vez mais intolerantes.

Pode ser que o Boni tenha razão. Pode ser que as pessoas ainda não entendam o formato do humor do Tá no Ar - A TV na TV, ou do Porta dos Fundos, ou dos programas de humor da extinta MTV Brasil. Mas espero que esse seja o momento onde tomemos a consciência de que podemos rir do que realmente é engraçado, sem precisar apelar para o óbvio e para a ridicularizarão do próximo.

Davi de Oliveira - 25/05/2016

Referências:






terça-feira, 17 de maio de 2016

A história de Gabriela: A coxinha petralha

(Primeira parte do conto, A história de João: O pagador de impostos,
Segunda parte do conto, A história de Lucas: O homem do governo)
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Quando criança, Gabriela fez catequese, odiava Darwin.

Aprendeu evolução natural na escola e passou a odiar as religiões.

Seu pai morreu na cadeia e ela descobriu que a religião podia confortá-la.

Foi reprovada na escola por um professor gay, se tornou homofóbica.

Descobriu que sua melhor amiga era lésbica e mudou seu modo de pensar.

Foi assaltado por um menino negro e virou racista.

Se apaixonou por Ricardo, um negro de origem angolana, e percebeu que racismo não fazia sentido.

Estudou política econômica e descobriu que o Estado estava longe de ser um instrumento para o bem do povo.

Virou liberal radical, contra a presença do governo em qualquer situação.

Seu chefe demitiu funcionários e congelou salários mesmo com aumento dos lucros. Descobriu que o patrão é tão perverso quanto o Estado.

Um equilíbrio entre os dois seria possível?

Gabriela era flamenguista e odiava o Vasco.

Zé Golaço, artilheiro e ídolo rubro-negro foi jogar para os vascaínos por um salário maior.

Deixou de odiar o Vasco e amar cegamente o Flamengo.

Gabi foi petista, até que a lava-jato a impediu. Gabi foi tucana, mas a mesma lava-jato também a impediu. Não foi PMDB porque ninguém é.

Descobriu que PT e PSDB são muito mais parecidos do que ela pensava.

Gabi foi de direita, esquerda, centro, norte e sul.

Até que finalmente aprendeu que os extremos não funcionam.

Também aprendeu que é errado resumir uma pessoa em uma direção, um partido ou um salgadinho.

Gabi passou a se perguntar porque brigamos tanto se todos querem um país melhor, apenas acreditam em métodos diferentes.

Em um protesto, Gabi descobriu que as pessoas estão mais preocupadas em estarem certas e impor sua visão aos outros do que qualquer outra coisa.

Ela descobriu que as pessoas só querem falar, mas não ouvir.

Após 21 anos Gabi desistiu de tentar se encaixar em lados políticos e sociais. Gabi é Gabi.

Gabriela é quem poderíamos ser e quem eu gostaria de me tornar.
-Fim da Trilogia-

Leonardo Teixeira - 17/05/2016

terça-feira, 10 de maio de 2016

A história de Lucas: O homem do governo

(Primeira parte do conto, A história de João: O pagador de impostos)
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Lucas era classe média e tinha um emprego estável. No entanto, aprendeu com a experiência de seu pai que se não pode derrotar seus inimigos deve se unir a eles.

Lucas largou tudo e foi estudar para um concurso público. Passou e ficou nele fazendo exatamente a mesma coisa para sempre.

Mas o para sempre o entediou, ele tinha ambições mais altas.

Com o apoio do Pastor do bairro foi eleito vereador.

Lucas descobriu que a vida de político era ainda melhor que a de um concursado.

Virou deputado estadual. Lembrou da bondade de seu pai João e tentou propor bons projetos para a população.

Todos eles foram barrados.

Lucas finalmente pôde entender que para aprovar projetos era mais importante agradar os outros deputados do que apresentar algo bom.

Resolveu buscar mais poder para aplicar suas ideias concorrendo para deputado federal.

Para ser eleito precisava de dinheiro para a campanha. Uma empreiteira ofereceu o que ele precisava em troca de influência no congresso.

Lucas foi eleito.

Anos depois era hora de tentar a prefeitura, mas não seria fácil. Alguns homens poderosos ofereceram a ele algo que sempre foi e sempre será valioso: votos. Em troca de cargos nas secretárias municipais, Lucas seria o novo prefeito da cidade.

Assim que eleito, percebeu que já não podia fazer mais nada, sua autonomia se foi ao longo dos acordos.

Mas a vida de político ainda era ótima, cheia de glamour, luxo e um ego muito bem alimentado.

Uma década depois, após sujar muito as mãos, agradar muita gente poderosa e encenar muito na frente das câmeras, Lucas se tornou o presidente do seu país.

Tanto dinheiro começou a entrar que ele teve que mandar para a Suíça e registrar imóveis em nome de Laranjas. Lucas cobrava impostos dos outros enquanto escondia o seu, ele agora estava do lado dos “vencedores”.

Um belo dia, quando Lucas já não era mais Lucas, e sim um burocrata que havia esquecido tudo o que um dia sonhou, foi preso e se tornou vergonha nacional.

Lucas foi solto, o povo esqueceu e ele foi eleito Senador.

Foi preso de novo e dessa vez não saiu.

Sempre negou todas as acusações, tudo era calúnia, todo seu dinheiro foi conquistado com muito suor.

Apodreceu na cadeia, morreu rico, envergonhado e não pôde ver sua filha Gabriela crescer.

Lucas são os homens do Governo.
(Última parte do conto, Gabriela: A coxinha petralha)

Leonardo Teixeira - 10/05/2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

Novo álbum de Beyoncé: É marketing ou não?


Muitas das músicas de Beyoncé, desde os tempos de Destiny’s Child, trataram sobre empoderamento feminino, com músicas como Independent Women, Single Ladies, Run The World (Girls), entre outras.

Em Fevereiro deste ano, Beyoncé lançou de surpresa o single Formation e, como não poderia ser diferente, causou um frisson nas redes sociais e na crítica especializada por apresentar uma postura diferente da apresentada em trabalhos anteriores. Beyoncé parece finalmente estar engajada na questão racial, da qual foi sempre questionada por um suposto processo de embraquecimento. Mas isso não ficou impune, já que muitos torceram o nariz para o vídeo da música no qual ela claramente denuncia o genocídio de jovens negros por parte da polícia de seu país.

O programa humorístico estadunidense Saturnday Night Live fez um esquete incrível, onde a partir do clipe de Formation o mundo teria finalmente descoberto que Beyoncé é negra. Genial! Cabe aqui a nota de que faltam bons programas de humor como este na televisão brasileira.

Apresentação no Superbowl desse ano.
Na apresentação do Super Bowl na qual foi convidada pela banda britânica Coldplay para uma participação, Beyoncé mais parecia a atração principal, não só pelo seu domínio de palco, mas também pela polêmica gerada pelo single, ainda mais com suas bailarinas usando um figurino que fez referência aos Panteras Negras! Um ultraje para muitos, como a jornalista Tomi Lahren, que afirmou em seu programa, The Final Thoughts, que Beyoncé estaria fazendo apologia à violência. Jura?

 Com uma nova turnê anunciada para Abril, levando o mesmo nome do tão comentado single, era de se esperar que a questão racial fosse fortemente apresentada nas performances e no novo álbum que estava para ser lançado. No último dia 23, com toda a pompa a HBO levou um especial de uma hora de duração com todas as músicas do novo álbum, “Lemonade”, unidas em uma espécie de média metragem, onde se confirmou o teor politico já esperado.

Foi a vez do Jornalista britânico Piers Morgan fazer duras críticas. Segundo Morgan, que a entrevistou há cinco anos, usar as mães de jovens negros assassinados em um dos seus vídeos seria mais um artifício para vender álbuns e “encher ainda mais o bolso de dinheiro”. Em sua declaração, o jornalista disse também que preferia Beyoncé “menos inflamada”, ou seja, menos engajada.

As mães de Michael Brown e Travyon Martin, assassinados por policiais nos Estados Unidos.
Algo que não deve se deixar de mencionar é que os dois jornalistas citados acima são brancos. A pergunta que não quer calar é, por que tanto esses jornalistas, quanto outras pessoas, ficaram tão incomodados com o fato de uma artista do alcance de Beyoncé tratar tão abertamente sobre o tema da questão racial?

Estaria Beyoncé desautorizada de falar sobre o racismo apenas por não ter se envolvido na militância anteriormente?

Vele lembrar que a cantora Nina Simone em meados dos anos 60 foi uma das porta-vozes na batalha pelos direitos civis dos negros norte americanos, ao lado de figuras como Malcom X e Martin Luther King. Nina Simone usou a música como resistência. Mississipi Goddam foi uma das músicas que inclusive chegou a ser proibida em alguns estados, pelo seu forte conteúdo político em sua letra afiada com direito a um palavrão, algo inadmissível para os padrões da época. Sua militância lhe custou o estrelato, boicotada por diversos veículos, e quase lhe custou a vida, já que muitas pessoas ligadas às lideranças do movimento pelos direitos civis foram assassinadas.
Não estou querendo dizer que se trata da mesma coisa, até porque os tempos são outros e os mecanismos de racismo modificaram-se. E se Beyoncé pode fazer o que faz, é porque houve no passado uma Nina Simone.

A eficiente equipe de Beyoncé:

Que Beyoncé é a rainha do marketing, todos nós sabemos. Há uma excelente equipe por trás da cantora que, quando não consegue blindar determinados “vazamentos” de sua vida pessoal, usam-nos a seu favor fazendo com que lucre ainda mais com isso.

Imagens do video de divulgação do remix de Flawless.
Os mais atentos ao mundo das celebridades vão se lembrar do episódio em que as câmeras de segurança do elevador do Standard Hotel, em Nova Iorque, após um baile de gala, registrou a irmã mais nova de Beyoncé, Solange Knowles, agredindo o rapper Jay-Z, marido da estrela. Foi um grande escândalo e muito se especulou, mas o motivo real da confusão não foi divulgado. Sua equipe fez mais um bom trabalho. E não é que meses depois a “explicação” da briga, quando todos já haviam-na esquecido, estava no remix da música Flawless! Beyoncé ainda lucrou com a invasão de sua vida pessoal. Marketing é com ela mesma. Arrisco a dizer que na atualidade poucas artistas gerenciam tão bem suas carreiras.

No entanto, esse excesso de marketing na vida pessoal e artística de Beyoncé faz com que muitos não deem crédito à genuinidade de suas ações. Mas isso seria o suficiente para acusa-la de se apropriar de um tema tão delicado quanto a questão racial visando apenas o lucro?


Ativismo de conveniência?

Usar um tema social como racismo para lucrar seria no mínimo perverso, mas infelizmente não seria a primeira vez. Aqui mesmo no Brasil a grife UseHulk, do apresentador Luciano Hulk, entrou de carona no caso do jogador Daniel Alves em 2014 e lançou uma coleção de camisetas com o slogan “somos todos macacos”. Mais oportunismo impossível!

Mas no caso de Beyoncé, seria apenas uma questão meramente comercial? Arrisco o palpite de que não, pois, uma vez no patamar de estrelato em que chegou, qualquer “batidão” de pista de dança faria sucesso. Seu nome, por si só, vende! Outro fator importante é a parceria com Kendrick Lamar na faixa Freedom, uma das que mais incisivamente trata da questão racial no álbum. Kendrick é um dos grandes ativistas negros nos EUA. Sua música Alright virou um hino de resistência em um protesto em Cleveland, onde um menino de 14 anos foi preso. Acredito que Kendrick Lamar não faria essa parceria com fins unicamente comerciais.

Beyoncé não precisa da minha defesa, uma vez que como citado acima, há uma equipe muito bem articulada para defendê-la de qualquer possível ataque da imprensa a respeito de sua “nova” postura política ou qualquer outra situação que envolva sua careira. A questão é, qual a legitimidade que esses críticos, em sua maioria brancos, têm para definir o ativismo dela ou de quem quer que seja?
O argumento de Piers Morgan que aponta uma Beyoncé apolítica há cinco anos atrás é no mínimo frágil e sem sentido. A urgência da abordagem de determinados temas vêm com o desenrolar dos fatos.

O debate sobre a questão racial está novamente em ebulição nos EUA desde Agosto de 2014, quando o jovem de 18 anos Michael Brown foi assassinado por um policial branco na cidade de Ferguson, no estado americano de Missouri, acusado de roubar cigarros em uma loja de conveniência, de acordo com um relatório contraditório da polícia local. O episódio gerou inúmeros protestos. A mãe de Michael Brown, inclusive, é uma das mães que aparecem em um dos vídeos de Beyoncé.

E o que dizer sobre o caso da Igreja Africana Metodista Episcopal de Emanuel em Charleston na Carolina do Sul, onde nove pessoas negras foram assassinadas por um jovem branco de 21 anos?

sexta-feira, 29 de abril de 2016

A história de João: O pagador de impostos


Em um belo dia João nasceu.

Quando criança estudou em escolar particular, pois a pública era perigosa e ruim.

Cresceu e foi para faculdade, também privada.

Anos depois se formou e começou a trabalhar para uma companhia de seguros.

Logo João descobriu que trabalhava quase 5 meses por ano apenas para pagar tributos.

Ele não entendia porque pagava tantos impostos se não usufruía de serviços públicos, devia ser para ajudar os pobres.

Mais tarde, João descobriu que programas nobres como o Bolsa Família eram na verdade parte minúscula do orçamento público, se gastava muito mais com mordomias a funcionários públicos, empreiteiras e desvios.

João descobriu que foi enganado a vida inteira, seu dinheiro não estava no prato de comida de uma criança pobre, estava na Suíça.

A vida seguiu em frente, se apaixonou e casou com Maria. Algum tempo depois Lucas nasceu.
Quando Lucas tinha 6 anos, uma crise econômica assolou o país. João estava perplexo, a televisão e o presidente disseram que estava tudo bem.

A recessão foi forte, os móveis parcelados na Casas Bahia não podiam mais ser pagos, a escola de Lucas também não, João havia perdido seu emprego.

Em resposta aos problemas, os deputados aumentaram 2 coisas, seu próprio salário e os impostos.

João e a população ficaram ainda mais pobres.

2 anos depois a crise acabou (por enquanto).

Lucas cresceu e foi pra faculdade. João e Maria queriam se aposentar e viajar ao redor do mundo para aproveitar os anos que restavam.

No entanto, o casal descobriu que a aposentadoria que iriam ganhar não chegava nem perto do que gastaram com INSS durante a vida.

Tiveram que trabalhar para sempre. O governo nunca cumpriu a promessa de ajudá-los a ter uma vida melhor. Cobrou, taxou, usurpou, mas nunca retribuiu.

No final da vida, João contou o que aprendeu ao longo de décadas para Lucas. O governo, em nome de um “bem geral”, favorecia uma pequena elite política e empobrecia o resto desde o início de suas vidas. Ele dava umas migalhas para os necessitados, como forma de compensar minimamente a fortuna que haviam roubado, apenas para esconder que na verdade estavam tornando os pobres, mais pobres e os ricos mais ricos. Lucas nunca esqueceu disso.

João sou eu, você e a maioria das pessoas que conhecemos.
(Continuação do conto, A história de Lucas: O homem do governo)

Leonardo Teixeira - 29/04/2016

quinta-feira, 7 de abril de 2016

A Tristeza do Homofóbico

A palavra fobia vem do grego φόβος, que significa medo, e o que seria a homofobia além do temor a afeição ao mesmo sexo? Não há outra explicação possível para esse ódio irracional. Enquanto a ciência tem cada vez mais indícios de que a homossexualidade está longe de ser uma escolha, e o mundo cada vez mais aceita a união do mesmo gênero, algumas pessoas insistem em ficar presas no tempo, relutam a admitir o avanço social. Para a ignorância há apenas um remédio, informação, então é isso o que faremos aqui.


A escolha de ser gay:
De um lado você pode ser parte da chamada “maioria”, ser aceito por todos e não sofrer preconceito, do outro lado, você é discriminado, proibido de amar e demonstrar afeição ao seu parceiro. Quem em sã consciência iria escolher o caminho mais difícil? A resposta é simples, nunca houve uma escolha.

Estudos vêm apontando que a orientação sexual está na genética, nos Estados Unidos, certas vezes, já se conseguiu prever se alguém seria gay analisando padrões genéticos dos participantes. Obviamente esses estudos não são definitivos, ainda há muito para se descobrir sobre o genoma humano. Porém, fica cada vez mais claro que a orientação sexual está longe de ser uma escolha. Afinal, se fosse uma opção, porque tantos escolheriam ser discriminados?

A felicidade e o sucesso de quem amamos é muito mais importante que sua sexualidade.

Homossexual é contra a natureza:
Desde quando seguimos estritamente o que é natural? Comemos enlatados, tomamos remédios e dirigimos carros. Queremos mesmo viver em estado de natureza? Como se esse argumento não bastasse, a homossexualidade é extremamente comum no mundo animal.

Aves, insetos, mamíferos, todos eles apresentam comportamento homossexual. Golfinhos, leões, pinguins, libélulas, alguns macacos, e muitos outros; todos eles já tiveram relações com o mesmo gênero. Ainda há o caso do carneiro doméstico, que muitas vezes adota um parceiro do mesmo sexo para o resto da vida.


A religião:
Vamos mesmo seguir cegamente coisas escritas milhares de anos atrás? O mundo mudou, e a concepção de moralidade também. Não podemos usar a bíblia como argumento, esse mesmo livro considera a escravidão um estado natural. Isso não se dá por culpa de quem a escreveu, pois, naquela época tal ação era aceita. Não estou dizendo que você deve jogar sua bíblia fora, mas ter o bom senso de interpretá-la para os tempos atuais. Platão e Aristóteles, dois filósofos importantíssimos para a história da humanidade, acreditavam que as mulheres eram inferiores. Nem por isso estamos usando seus escritos para defender algo que é tão absurdo no século XXI. Portanto, da mesma forma não usamos o livro cristão para defender a escravidão, nem escritos gregos para defender a inferioridade feminina, é hora de mudarmos nossas visões acerca da questão sexual também.

Além do caso da bíblia, mais importante ainda é a mensagem que Jesus passou; o amor incondicional ao próximo. Se realmente seguíssemos a frase “somos todos irmãos” e amássemos o outro, em vez de amar apenas aqueles que se encaixam com as nossas concepções, certamente a sociedade seria diferente. Nem entrarei nos casos como o do Cardeal O’Brien, um dos muitos membros da igreja denunciados por “comportamentos homossexuais” ou “inapropriados”.

Desmond Tutu, arcebispo da Igreja Anglicana, laureado com o Prêmio Nobel da Paz em 1984 pela sua luta contra o Apartheid já afirmou: “Se Deus é homofóbico como dizem, eu não veneraria a Ele”.

Em algum momento esquecemos o que Jesus tentou nos falar.

A tristeza de um homofóbico:
Sejamos francos, que diferença faz para você se o seu amigo dorme com outro homem? Só uma pessoa tão infeliz e rancorosa para se incomodar com a felicidade dos outros. Um homofóbico é mais digno de pena do que de raiva. A sua ignorância e tristeza é tanta que os outros ao redor não podem ser felizes. Essas pessoas que precisam de ajuda, não um homossexual.


Aqueles que mudaram de time:
Talvez você não saiba, mas muitos militantes anti-gay já saíram do armário e assumiram a sua “fobia”.
  
Sérgio Viula era pastor e líder da MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia), que visava “curar gays”. Em 2002, após 14 anos casado e com 2 filhos frutos dessa relação, assumiu ser gay e ateu.

John Smid, após 18 anos de militância contra os gays, resolveu se assumir e pedir desculpas por ter prejudicado tantas pessoas em situação delicada. “Eu tinha fé de que algo iria acontecer (virar heterossexual), mas isso nunca aconteceu. Agora, na minha idade, já não tenho muitos anos restantes, não posso viver mais assim pelo resto da minha vida. Então, eu pensei que não, eu não estou disposto a continuar empurrando algo que não vai ocorrer”, admitiu Smid. Em 2015, John finalmente resolveu buscar a felicidade e se casou com o namorado Larry Queen.

Esses dois casos entre inúmeros outros ilustram como muitas vezes o ódio é muito mais uma tentativa de reprimir a si mesmo, que paradoxalmente acaba se tornando em raiva contra os gays. Exemplo desse paradoxo é o Brasil, país que é o maior consumidor de pornografia transexual do mundo, e ao mesmo tempo o que mais mata travestis. Obviamente, não estamos defendendo que todo homofóbico é um homossexual “no armário”, mas que essa raiva é irracional e triste é inegável.


A reprodução e a adoção:
Sempre escutamos a velha frase: “dois homens ou duas mulheres não fazem filho”. Por acaso um casal deveria estar proibido de se amar e de casar por não poder ter filhos? Então um homem ou mulher estéril devem ser proibidos de casar? E quanto a parceiros idosos? E se um casal que simplesmente não quer ter filhos? Todos eles devem ser proibidos de casar?

Vivemos em um mundo com 7 bilhões de pessoas, e continuamos crescendo rapidamente, o planeta não consegue fornecer recursos para todos nós e agradece se dermos uma freada. Além disso, acusações como “os gays vão dominar o mundo” fazem ainda menos sentido. O mundo não está mais gay hoje do que estava no passado, ninguém vira gay pela criação que teve ou pelo ambiente em que vive. Como já dito anteriormente, a orientação sexual não é uma escolha, a única diferença é que as pessoas agora estão mais livres para amarem e serem elas mesmas.

Nosso país possui dezenas de milhares de crianças em orfanatos esperando para serem adotadas. Alguém realmente pode achar que viver em um orfanato é melhor do que viver com um casal gay dedicado e amoroso? A adoção de órfãos por casais homo afetivos não apenas deveria ser um direito como também é a solução para um problema social grave. Os que são contra podem defender que os adotados poderão sofrer bullying entre outras discriminações, mas a grande verdade é que as pessoas que fazem esse tipo de afirmação são as principais causadoras disso. O mundo está mudando e principalmente os jovens aceitam as diversidades cada vez mais, logo, viver num orfanato não chega nem perto de ser como viver com país gays apaixonados.

É interessante como nossa moralidade é seletiva, na televisão assistimos traições, assassinatos, nudez e brigas, mas quando se exibe amor homo afetivo é motivo de censura e dura repressão.

Um novo mundo: 
Essa separação entre homem e mulher, azul e rosa, cueca e calcinha, está cada vez mais ultrapassada. Lojas de roupas estão começando a lançar grifes unissex. Recentemente a Louis Vitton teve Jaden Smith, o filho de Will Smith, como garoto propaganda de uma coleção feminina da marca. Deveríamos poder nos vestir como quisermos, amar quem quisermos, vivermos da maneira que nos faça bem e feliz. O amor não tem gênero, não tem órgão sexual definido, e quem não consegue aceitar isso, não apenas vai ficar para trás como também é digno de pena por não conseguir conviver com a felicidade alheia. Afinal, o mundo seria tão chato se todos fôssemos iguais.


Leonardo Teixeira - 07/04/2016

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Referências:


sexta-feira, 18 de março de 2016

A crescente intolerância no Brasil


No dia 13/03/2016, por um dos maiores protestos de nossa história, as redes sociais tiveram uma avalanche de comentários, tanto apoiando, quanto criticando o ocorrido. Como de praxe, o facebook virou um grande “show” de comentários precipitados, passionais e irracionais. No entanto, esse “show” não tem ocorrido apenas com os protestos, mas sim há muito tempo. O país vive uma polarização radical entre a população, e qualquer posição radical é perniciosa. Nem entrarei nos casos extremos que terminaram em agressão; embate físico por divergência política é algo tão primitivo que nenhum dos envolvidos pode estar certo. O que vemos nos últimos tempos, é o povo brasileiro ser resumido em pobres contra ricos, o bem contra o mal. Esse maniqueísmo é infantil e irreal, qualquer nação tem diversas camadas sociais, nenhuma delas homogênea.

Agressões entre pró-PT e anti-PT se tornaram corriqueiras. Uma pessoa com o minímo de consicência política, jamais faria ato tão animalesco. Nosso povo precisa entender que as mudanças são movidas pelas ideias, não pelo braço. (Foto: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo)

Muitos repudiaram os protestos por ser um movimento da “elite”, outros porque figuras como Bolsonaro e Malafaia estariam presentes. Em relação a primeira crítica, tentou-se resumir todo o movimento nas ruas em um embate dos ricos contra Dilma e o PT. Antes de tudo, nas últimas eleições presidencias, Aécio Neves teve 48% dos votos no segundo turno, atualmente 90% da população reprova o governo de Dilma, logo, essa dicotomia não faz o menor sentido. Outro problema é querer deslegitimar os protestos pela aparição de figuras políticas, que querem sair como heróis nesse período. Geraldo Alckmin e Aécio Neves foram as ruas de São Paulo no dia 13 e não conseguiram discursar, tiveram de sair sob vaias e gritos de oportunistas e ladrões. Isso aconteceu em São Paulo, onde a renda é muito maior que no resto do país, mostrando que o movimento das ruas não teve nada a ver com “elite”, PSDB, ou qualquer outro partido, na verdade os próprios tucanos vêm perdendo popularidade em pesquisas eleitorais.

Alguns aplaudiram e ovacionaram os tucanos, mas Aécio e Alckmin não conseguiram discursar sob vaias e ofensas e acabaram ficando menos de 30 minutos no protesto. (Foto: Filipe Araújo/Estadão Conteúdo)

O “endeusamento” do Juiz Sérgio Moro e o apoio incondicional a órgãos públicos que tem reputação bem duvidosa, também está completamente errado. Eles estão fazendo apenas o trabalho deles, a questão é que como no Brasil as instituições estatais geralmente são tão ineficientes, que quando elas fazem o que deveriam fazer, são aclamadas pelo povo.

Uma crítica feita sobre os protestos foi a de “indignação seletiva”, em meios há tantos escândalos políticos, a mídia e as pessoas só focam em Lula e Dilma. Tal afirmação é verdadeira, não se viu um “fora Cunha”, não se viu um “Aécio na cadeia”, pois eles estão sendo indiciados por corrupção também. No entanto, esse não é um problema exclusivo do Brasil, quando atentados terroristas ocorreram contra o jornal Charlie Hebdo e contra a população de Paris, todos “fomos Charlie”, todos “fomos Paris”, mas quando ouve o massacre de 147 pessoas em uma universidade em Garissa, ninguém “foi Quênia”. Ninguém “foi Ancara” em nenhum momento entre os diversos atentados ocorridos lá. Ninguém colocou a bandeira desses países em seu perfil no facebook. Essa “indignação seletiva” existe em todos os lugares, e no protesto brasileiro é tão ruim e excludente como em qualquer lugar.

É inegável o sensacionalismo que a impressa vem fazendo, já entrevistaram até o chaveiro que abriu o tríplex no Guarujá para a Polícia Federal, perguntaram para ele quanto custou o serviço, para quem tem curiosidade nesse dado inútil, foi cobrado R$ 100. Tudo é motivo de notícias, se tira leite de pedra para vender manchetes. Além disso, houve um completo esquecimento de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Aécio Neves na mídia, toda a corrupção do país é culpa do PT.

Esse embate Esquerda x Direita não faz o menor sentido. São conceitos ultrapassados e completamente distorcidos ao longo do tempo. Ambos os lados são passionais e usam de qualquer artefato para defender sua visão. O caso da babá, Maria Angélica Lima, fotografada nos protestos é um grande exemplo disso. Criou-se uma grande arruaça em volta de uma pessoa que não queria ser exposta e estava lá fazendo o seu trabalho.

Foto da babá Maria Angélica Lima que viralizou na internet. (Foto: João Valadares/CB/Da Press)

Chamaram a babá de tudo, desde escrava oprimida pelo patrão, até símbolo da elitização do movimento de 13 de março. Até que finalmente pararam de especular e deram uma chance dela falar. Se descobriu que ela apoiava os movimentos nas ruas, e que ela votou em Aécio Neves nos dois turnos das últimas eleições. Além disso, Maria Angélica disse gostar de seu trabalho, pois durante a semana ela tem tempo livre para cuidar dos filhos. Citar o Aécio, não chega nem perto de defendê-lo, quem sabe ele não divida uma cela com Lula na prisão, apenas citei o voto de Maria para mostrar como essa separação entre tucanos e ricos contra Dilma/PT e pobres não existe. 

De fato, haviam pessoas ignorantes nas ruas no domingo passado, o PT não é Messias Salvador, muito menos o PSDB, sem falar do camaleão PMDB. Mas atos, como as vaias contra políticos oportunistas, além de diversos cartazes repudiando, tanto, partidos da oposição, quanto da situação, mostraram a neutralidade da maioria dos protestantes. Isso dá esperança, há um desejo crescente de reforma na política e no modo de pensar desse país. Ainda pensamos como crianças, achamos que o mundo é um filme da Disney, se resume em princesa contra bruxa, bonzinho contra malvado, rico contra pobre, esquerda contra direita, um bando de bobagem passional e totalmente fora da realidade.

A nomeação de Lula para chefe da Casa Civil, independente de assumir o cargo efetivamente ou não, apenas deve aumentar essa polarização e a efervescência que o país está vivendo, esperamos que mudanças benéficas venham para o Brasil após isso tudo, que as pessoas se conscientizem mais e percebam a responsabilidade do voto, para que o gigante não acorde de novo como fez em 2013, e volte a dormir deixando tudo como estava.

Leonardo Teixeira - 18/03/2016

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Matéria sobre ataque no Quênia: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/02/internacional/1427960494_039424.html
Matéria sobre a hostilização de Aécio e Alckmin: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/03/alckmin-e-aecio-sao-hostilizados-na-chegada-manifestacao-na-paulista.html
Entrevista com a babá Maria Angélica Lima: http://extra.globo.com/noticias/rio/o-pobre-que-sofre-diz-angelica-baba-de-foto-polemica-em-manifestacao-rv1-1-18876978.html

quinta-feira, 10 de março de 2016

A televisão precisa mudar


A televisão está cada vez mais ultrapassada, enquanto isso a audiência no Netflix e Youtube continua subindo exponencialmente. Já se passou a época em que tínhamos que esperar um horário X para ver o que gostamos, também já não temos mais que abrir mão de ver um programa para ver outro no mesmo horário. Com os novos meios on-line, assistimos o que queremos, como queremos, onde queremos, e geralmente por um preço melhor ou até de graça.

A indústria americana que produz seriados necessita urgentemente se renovar. Hoje, se quisermos ver uma série como The Walking Dead, tem de ser no dia e no horário marcado na televisão, e esse é exatamente o problema. Muitas vezes estamos estudando, trabalhando, ou apenas não queremos ver naquele momento. Geralmente existe um horário alternativo, que possivelmente também não sirva para você. Logo, não é difícil entender porque a pirataria é um sucesso tão grande. Todo mundo sabe que ela é nociva, custa caro as produtoras, tira o crédito de quem trabalhou por aquilo, porém, única coisa que a indústria tradicional basicamente tem feito para combater, é retirando sites do ar. Da mesma maneira que qualquer um acha maconha mesmo sendo ilegal, downloads piratas são fáceis de encontrar por mais que sites sejam removidos e caçados.

Mega Filmes HD, era o site de filmes ilegais mais famoso do Brasil Ele foi retirado do ar e os donos chegaram a ficar preso por alguns dias, no entanto, a pirataria continua não foi reduzida.
A pirataria parecia algo impossível de se combater, mas aí veio o Netflix e mudou tudo. De repente é possível assistir o que quiser, quando quiser e onde quiser, por um preço muito razoável. O sucesso dela não é tão difícil de se entender, quando se ofereceu a oportunidade para as pessoas optarem entre downloads ilegais ou um banco on-line de filmes e seriados, legalizado, com boa qualidade e que apoia as produtoras, boa parte delas fez a escolha de ficar dentro da lei. A Netflix basicamente oferece tudo que um site pirata também oferece, então eu certamente prefiro o caminho que apoia a indústria.

O Youtube também cada vez mais tira as pessoas das televisões. O site de vídeos está repleto de conteúdo de qualidade (e de baixa também), onde os “canais” não precisam ser concorrentes, afinal, não é mais necessário abrir mão de um programa para ver outro, é possível ver tudo, quando quiser, gratuitamente, e de maneira que a Google ainda consiga lucrar. Recentemente a empresa ainda lançou o Youtube Red, serviço pago que custa cerca de R$40 mensais, onde se pode ver vídeos sem anúncio, baixá-los para ver offline e outras vantagens, demonstrando como este mercado on-line está se expandindo.

As publicidades estão tendo mais retorno no Youtube do que na TV. Gastos com anúncios no site cresceram 200% em 2015.
Obviamente a televisão é importantíssima para essas produtoras, pois a publicidade é a grande fonte de renda, mas isso também é adaptável para a internet. Sites como o Crackle, oferecem filmes gratuitos legalizados para ser ver, que possuem algumas pequenas propagandas durante a exibição. Talvez uma mistura entre ele e o Netflix, onde com um preço baixo e ainda com alguns poucos comerciais para sustentar as produtoras seja algo viável. Pagar um pequeno valor mensal para assistir seriados, exibindo uma ou duas propagandas no meio, com boa qualidade de vídeo e totalmente legalizado não é problema nenhum. Por isso que esses serviços simplesmente tornam a pirataria inútil.

Breaking Bad, umas das séries de maiores sucesso da história, ficou ainda mais famosa quando foi disponibilizada on-line, milhões de pessoas finalmente puderam assistir no horário que as convinha. Outro caso interessante é o de Prison Break, série que já havia sido finalizada anos atrás e agora está voltando. Após ela ser disponibilizada no Netflix, o número de visualizações foi enorme, o que mostrou a FOX como o seriado ainda era forte entre o fãs, contribuindo diretamente para o retorno da mesma. Esse clamor por Prison Break seria impossível de se descobrir se essas pessoas estivessem baixado ilegalmente a série. Dessa forma tanto a indústria quando a audiência saíram ganhando.

Netflix foi uma das grandes responsáveis pelo sucesso de Breaking Bad. Mais pessoas já assistiram a série on-line do que na televisão. O próprio diretor, Vince Gilligan, agradeceu a empresa.
O seriado Better Caul Saul  resolveu misturar TV e internet. Sempre que ela vai ao ar, logo em seguida o episódio fica disponível na Netflix, dessa forma não há razão alguma para piratear. A empresa de seriados e filmes on-line, virou esse império porque soube aproveitar a mudança de perfil do público, e agora ela própria vem fazendo produções de altíssima qualidade, como Marco Polo, Narcos e House of Cards.


Kevin Spacey, protagonista em House of Cards já disse em discurso: “nós demonstramos que aprendemos a lição que a indústria musical não aprendeu: dê às pessoas o que elas querem, quando elas querem, como elas querem, a um preço razoável, e elas irão pagar por isso em vez de roubar”.
Esse texto não tem a menor intenção em justificar a pirataria, mas sim alertar para essa mudança de hábito do consumidor. Essa caça incessante a sites piratas simplesmente não funciona, mas ao se oferecer condições razoáveis, a maioria com certeza opta por assistir seus programas por meios legais. Casos como Game of Thrones e The Walking Dead, demonstram o quão alto é o custo da pirataria, por isso está na hora dessas produtoras adotarem uma abordagem diferente, e oferecer oportunidades para o público acessar esse conteúdo de maneira que apoie a própria indústria. Os exemplos de sucesso estão aí, os fatos provam como é possível minimizar os meios ilegais, e ainda beneficiar tanto quem assiste, quanto quem produz.


Leonardo Teixeira - 10/03/2016

quinta-feira, 3 de março de 2016

O que eu ví no Japão: Mitos e Verdades


Tive a oportunidade de passar um mês e meio em Tóquio, não foi tempo suficiente para dar uma resposta definitiva a cerca dos costumes nipônicos, mas pelo menos posso dar minhas impressões. Uma das melhores coisas da viagem foi poder ver na prática se a imagem e os estereótipos são verdadeiros ou não. Portanto, aqui escreverei sobre o que é mito e o que é real, também coisas boas e ruins do Japão. Também é importante enfatizar que este texto irá fazer generalizações, e como toda generalização peca em superficialidade, não pense que tudo dito aqui é absolutamente verdade e se aplica para todos os japoneses.

Os japoneses são frios:
Esse é um mito que se escuta muito, que os japoneses são frios e distantes. Isso acabou se mostrando uma total mentira durante minha vivência por lá. Eles são receptivos, animados, gostam de sair com os amigos e bater muito papo. Obviamente os asiáticos não são calorosos como os brasileiros, afinal, eles não costumam se tocar muito, mas isso não significa que eles não tenham afeição uns pelos outros. Na verdade, acredito que o principal motivo por eles se abraçarem pouco, é por causa da timidez. Muitas vezes quando comentava como nos cumprimentamos no Brasil, não hesitavam nem um pouco em me abraçar.

O Japão é cheio de regras:
Sempre imaginei que o leste oriental era todo regrado e restritivo, acredito que muitos estrangeiros pensaram isso também. De fato, o país possui diversas regras, mas muitas delas nem são constituicionais e sim culturais. Os japoneses são extremamente educados e possuem uma grande preocupação em não incomodar as outras pessoas, mas isso não restringe de forma alguma a sua liberdade. Enquanto em países como Canadá, não se pode beber na rua, só se compra bebidas em lojas estatais e os bares não podem servir álcool após as 2 da manhã; no Japão não existe nenhuma dessas restrições, os japas adoram beber cerveja e sakê, ir para o karaokê, fazer pequenas sociais em casa, totalmente diferente da imagem “quadrada” que eles possuem.

O transporte e os serviços são excelentes:
Tóquio possui o maior metrô do mundo, que além disso é extremamente pontual. O transporte é tão bom, que muitos japoneses sequer tiram carteira de motorista. Nos serviços o padrão é o mesmo, rápido e de qualidade. Os restaurante te atendem com educação e atensiosidade. Lá você não paga nem pelo serviço, muito menos por gorjeta, o dono do estabelecimento é responsável por pagar um sálario decente aos seus funcionários, enquanto em diversos países os garçons praticamente tem de sobreviver com o que ganham por fora. Na terra do sol nascente também descobri o verdadeiro significado de “fast food”, o preço e a qualidade deles é muito acima dos “slow foods” que temos aqui.

Eles se vestem de maneira exótica:
Até vi alguns casos curiosos, no entanto, qualquer país tem “seus excêntricos”. No geral, eles se preocupam muito com a aparência, cuidam da pele e do corpo e se vestem muito bem, por isso, costumam ser bem elegantes. A juventude nipônica muitas vezes sofre com a obsessão da beleza, mas isso é algo que essa geração vem sofrendo em todos os lugares do mundo, então não vejo motivo para me aprofundar nesse assunto agora.

Eles desenham olhos grandes porque queriam tê-los:
Coloquei aquela figura no topo do texto para este tema, como todos sabem, nos animês, os personagens costumam ter olhos enormes. É muito comum se falar que a razão disso é o desejo deles de possuir tais atributos, e curiosamente é verdade. No Japão descobri que eles realmente gostam disso, eles consideram olhos grandes um sinal de beleza, ainda mais se possuirem cores mais incomuns, como verde e azul.

Agora irei falar de aspectos negativos da terra nipônica, afinal, não existe lugar perfeito.

O cigarro:
Essa provavelmente é a minha maior crítica nesse texto. Os japoneses estão muito atrasados na maneira que lidam com o cigarro. Talvez por ser brasileiro, seja mais crítico a isso, pois o Brasil é um dos países que está mais a frente nesse assunto, nosso cigarro é barato (comparado a outros países), mas mesmo assim o consumo cai ano após ano. O tabaco deixou de ser símbolo de elegância e a própria juventude o rejeita cada vez mais, resultado disso é que não existe mais áreas para fumantes há anos. Enquanto isso do outro lado do mundo, fuma-se muito, mesmo com o preço do maço alto. Ainda existe área de fumantes, e elas estão presentes em muitos restaurantes, alguns deles nem separam os não-fumantes, portanto, se você não fuma, é bem capaz de em algum momento você ficar respirando fumaça dos outros. Apesar do consumo estar caindo, eles ainda estão muito atrás nesse aspecto, como muitos fumam em lugares fechados e bares, há um grande estímulo para que novas pessoas experimentem. O maior absurdo são os garçons e garçonetes terem que trabalhar no meio desses ambientes. Em lugares como Brasil, Estados Unidos e Canadá, é proibido colocar funcionários nestas condições que ao longo prazo podem acarretar em graves problemas de saúde, porém no Japão, um país tão desenvolvido, pessoas ainda são obrigadas a trabalhar assim. Não tenho nada contra fumantes, é uma escolha pessoal, mas não acho correto os outros acabarem se tornando fumantes passivos por terem que viver nestes locais.

Eles não falam inglês:
Eles não falam mesmo, e isso se aplica a gigantesca maioria. Os japoneses que são fluentes no inglês acabam sendo admirados. É até paradoxal, a língua japonesa é cheio de palavras oriundas do anglo-saxão, e eles adoram a cultura americana, isso até os possibilita entender certas perguntas simples, mas aprender efetivamente o idioma é raro. Pelo menos eles são bem pacientes com estrangeiros e se esforçam ao máximo para se comunicar. Acredito que isso seja resquício do isolacionismo cultural que o Japão ainda possui. Afinal, apenas no século XX os japoneses se abriram efetivamente para o mundo, e apesar de serem muito receptivos, eles têm resistência a certas mudanças.

Alguns possuem a mente fechada:
Pude conhecer diversas pessoas em minha viagem, e de fato, alguns não têm muito interesse no que acontece fora do eixo leste-sudeste asiático. Eles defendem que o Japão é o melhor país do mundo, e portanto, não tem motivo para sair de lá. Uns amigos norte-americanos até que se parecem com eles né? Não acredito que exista um melhor lugar no planeta, a sua imensidão e diversidade é a sua graça, pois, mesmo com o Japão sendo um país incrível, ainda há tanto para se conhecer afora. Essas pessoas mais fechadas, claramente ainda possuem esses resquícios isolacionistas. Obviamente, esse grupo representa apenas uma parcela da população, que por sinal está diminuindo, a juventude é cada vez mais interessada no ocidente. É importante enfatizar que essas críticas não estão de maneira alguma defendendo a abdicação da cultura japonesa, que é fortíssima, bela e super interessante, afinal, você não precisa deixar as origens para poder viver novas experiências inter-culturais.

Concluindo..
Seja para visitar ou morar, o Japão é um país maravilhoso, que possui seus defeitos, mas no geral possui muito mais qualidades. Se hoje o país é pró3spero, foi porque se desenvolveu muito no último século, pois, eles já foram uma nação muito mais pobre, onde muitos não acreditariam no patamar que alcançaram atualmente. Logo, não existe povo condenado ao fracasso, não existe povo “preguiçoso”, todos podem se desenvolver se a oportunidade for dada, e quem sabe isso não aconteça também na terra do futebol e do samba.
No século XIX, um estrangeiro no Japão escreveu:

“Rico não acreditamos que ele (o Japão) algum dia será. As vantagens proporcionadas pela natureza, com exceção do clima, e o amor das próprias pessoas pela indolência e pelo prazer não permitem que isso aconteça. Os japoneses são uma raça feliz e, contentando-se com pouco, provavelmente não conseguirão muito.”


Leonardo Teixeira - 03/03/2016

 
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