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quarta-feira, 25 de maio de 2016

Qual é a graça?


No último mês de Março, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista a um programa matinal da rádio Jovem Pan fez alguns comentários sobre a televisão atual, mais precisamente sobre a Rede Globo, onde trabalhou por muitos anos e foi um dos responsáveis pelo chamado “padrão Globo de qualidade”.


Boni no programa Morning Show da Rádio Jovem Pan.
Um de seus comentários me chamou bastante atenção, no qual ele afirma que o “humor da TV brasileira foi para o espaço” e que o grande problema do programa de Marcelo Adnet é que “ninguém entende” as piadas. Fiquei bastante pensativo depois dessa reportagem... Se o humor da TV brasileira foi para o espaço, isso quer dizer que no passado já tivemos humor de qualidade? Se ninguém entende as piadas de um programa nos moldes do Tá no Ar - A TV na TV, isso quer dizer que as boas piadas nos programas de humor na TV aberta precisam ser mais óbvias?

Possivelmente, para tais afirmativas, Boni tem embasamento, afinal estamos falando de um dos grandes nomes da TV nacional, frequentemente ouvido e respeitado por profissionais da área! Entretanto, se pensarmos com calma, podemos lembrar de controvérsias como a manipulação do debate presidencial de 1989, algo que anos depois foi admitido por ele. Bom, talvez isso seja o suficiente para, apesar de sua experiência e talento, não considerarmos suas afirmativas como verdades inquestionáveis.

Antigos humorísticos da Rede Globo e o mais recente e também extinto Zorra Total.

Procurei algumas coisas dos humorísticos do passado, programas como O Planeta dos Homens, Balança Mais Não Cai, Satiricom, Viva o Gordo, entre outros. É inegável o talento desses que construíram a linguagem do humor televisivo que (pasmem!) é utilizada até os dias atuais.  As mesmas piadas e esquetes são praticamente iguais. Quadros criados por nomes como Jô Soares e Chico Anysio são reproduzidos à exaustão até hoje.  A Praça é Nossa é um bom exemplo de como o mesmo formato pode perdurar na TV sem nenhuma novidade: de 1957 para cá, passagem por várias emissoras e o mesmo conteúdo.


A Praça é Nossa: Nenhuma alteração de formato desde de sua estréia na TV Paulista.
Algo perceptível nesses vídeos antigos é a pobreza de seus roteiros, lotados de estereótipos por todos os lados. A mulher bonita e burra, o gay afetado, o negro malandro e caricato, o pobre ignorante, algumas interpretações políticas e bordões: muitos bordões! Esses tipos sustentaram o humor na TV brasileira ao longo do tempo.

Foi nesse momento que tive um insight e fiz uma conexão entre a fala de Boni e o mais novo bordão reacionário das redes sociais: “o mundo anda muito chato!”

Essa frase tem sido repetida inúmeras vezes sempre que grupos sociais oprimidos não aceitam ser alvo fácil desse tipo de humor ou ataques mais sérios. Em entrevista à revista Playboy, Renato Aragão falou da dificuldade de se fazer humor na atualidade ao aludir que negros e homossexuais, por exemplo, não se ofendiam com determinadas piadas. Já Danilo Gentilli, do SBT, diz que há uma “patrulha do politicamente correto”, organizada, inclusive.

Não há como afirmar se as pessoas não se ofendiam como disse Renato Aragão, mas é certo que a consciência e o empoderamento das minorias têm crescido e tomado corpo e voz. Com isso passou-se a enxergar que nem toda a piada tem graça, uma vez que para fazer rir é necessário subjugar o outro.
A grande pergunta que fica é: o mundo está chato porque oprimir está mais difícil?

Esses humoristas, que tanto têm se queixado da dificuldade de fazer humor, precisam se reinventar. Nós precisamos ser mais educados no que diz respeito à lida com o outro. Perpetuar estereótipos preconceituosos não ajuda em nada, ao contrário, contribui para que sejamos cada vez mais intolerantes.

Pode ser que o Boni tenha razão. Pode ser que as pessoas ainda não entendam o formato do humor do Tá no Ar - A TV na TV, ou do Porta dos Fundos, ou dos programas de humor da extinta MTV Brasil. Mas espero que esse seja o momento onde tomemos a consciência de que podemos rir do que realmente é engraçado, sem precisar apelar para o óbvio e para a ridicularizarão do próximo.

Davi de Oliveira - 25/05/2016

Referências:






terça-feira, 3 de maio de 2016

Novo álbum de Beyoncé: É marketing ou não?


Muitas das músicas de Beyoncé, desde os tempos de Destiny’s Child, trataram sobre empoderamento feminino, com músicas como Independent Women, Single Ladies, Run The World (Girls), entre outras.

Em Fevereiro deste ano, Beyoncé lançou de surpresa o single Formation e, como não poderia ser diferente, causou um frisson nas redes sociais e na crítica especializada por apresentar uma postura diferente da apresentada em trabalhos anteriores. Beyoncé parece finalmente estar engajada na questão racial, da qual foi sempre questionada por um suposto processo de embraquecimento. Mas isso não ficou impune, já que muitos torceram o nariz para o vídeo da música no qual ela claramente denuncia o genocídio de jovens negros por parte da polícia de seu país.

O programa humorístico estadunidense Saturnday Night Live fez um esquete incrível, onde a partir do clipe de Formation o mundo teria finalmente descoberto que Beyoncé é negra. Genial! Cabe aqui a nota de que faltam bons programas de humor como este na televisão brasileira.

Apresentação no Superbowl desse ano.
Na apresentação do Super Bowl na qual foi convidada pela banda britânica Coldplay para uma participação, Beyoncé mais parecia a atração principal, não só pelo seu domínio de palco, mas também pela polêmica gerada pelo single, ainda mais com suas bailarinas usando um figurino que fez referência aos Panteras Negras! Um ultraje para muitos, como a jornalista Tomi Lahren, que afirmou em seu programa, The Final Thoughts, que Beyoncé estaria fazendo apologia à violência. Jura?

 Com uma nova turnê anunciada para Abril, levando o mesmo nome do tão comentado single, era de se esperar que a questão racial fosse fortemente apresentada nas performances e no novo álbum que estava para ser lançado. No último dia 23, com toda a pompa a HBO levou um especial de uma hora de duração com todas as músicas do novo álbum, “Lemonade”, unidas em uma espécie de média metragem, onde se confirmou o teor politico já esperado.

Foi a vez do Jornalista britânico Piers Morgan fazer duras críticas. Segundo Morgan, que a entrevistou há cinco anos, usar as mães de jovens negros assassinados em um dos seus vídeos seria mais um artifício para vender álbuns e “encher ainda mais o bolso de dinheiro”. Em sua declaração, o jornalista disse também que preferia Beyoncé “menos inflamada”, ou seja, menos engajada.

As mães de Michael Brown e Travyon Martin, assassinados por policiais nos Estados Unidos.
Algo que não deve se deixar de mencionar é que os dois jornalistas citados acima são brancos. A pergunta que não quer calar é, por que tanto esses jornalistas, quanto outras pessoas, ficaram tão incomodados com o fato de uma artista do alcance de Beyoncé tratar tão abertamente sobre o tema da questão racial?

Estaria Beyoncé desautorizada de falar sobre o racismo apenas por não ter se envolvido na militância anteriormente?

Vele lembrar que a cantora Nina Simone em meados dos anos 60 foi uma das porta-vozes na batalha pelos direitos civis dos negros norte americanos, ao lado de figuras como Malcom X e Martin Luther King. Nina Simone usou a música como resistência. Mississipi Goddam foi uma das músicas que inclusive chegou a ser proibida em alguns estados, pelo seu forte conteúdo político em sua letra afiada com direito a um palavrão, algo inadmissível para os padrões da época. Sua militância lhe custou o estrelato, boicotada por diversos veículos, e quase lhe custou a vida, já que muitas pessoas ligadas às lideranças do movimento pelos direitos civis foram assassinadas.
Não estou querendo dizer que se trata da mesma coisa, até porque os tempos são outros e os mecanismos de racismo modificaram-se. E se Beyoncé pode fazer o que faz, é porque houve no passado uma Nina Simone.

A eficiente equipe de Beyoncé:

Que Beyoncé é a rainha do marketing, todos nós sabemos. Há uma excelente equipe por trás da cantora que, quando não consegue blindar determinados “vazamentos” de sua vida pessoal, usam-nos a seu favor fazendo com que lucre ainda mais com isso.

Imagens do video de divulgação do remix de Flawless.
Os mais atentos ao mundo das celebridades vão se lembrar do episódio em que as câmeras de segurança do elevador do Standard Hotel, em Nova Iorque, após um baile de gala, registrou a irmã mais nova de Beyoncé, Solange Knowles, agredindo o rapper Jay-Z, marido da estrela. Foi um grande escândalo e muito se especulou, mas o motivo real da confusão não foi divulgado. Sua equipe fez mais um bom trabalho. E não é que meses depois a “explicação” da briga, quando todos já haviam-na esquecido, estava no remix da música Flawless! Beyoncé ainda lucrou com a invasão de sua vida pessoal. Marketing é com ela mesma. Arrisco a dizer que na atualidade poucas artistas gerenciam tão bem suas carreiras.

No entanto, esse excesso de marketing na vida pessoal e artística de Beyoncé faz com que muitos não deem crédito à genuinidade de suas ações. Mas isso seria o suficiente para acusa-la de se apropriar de um tema tão delicado quanto a questão racial visando apenas o lucro?


Ativismo de conveniência?

Usar um tema social como racismo para lucrar seria no mínimo perverso, mas infelizmente não seria a primeira vez. Aqui mesmo no Brasil a grife UseHulk, do apresentador Luciano Hulk, entrou de carona no caso do jogador Daniel Alves em 2014 e lançou uma coleção de camisetas com o slogan “somos todos macacos”. Mais oportunismo impossível!

Mas no caso de Beyoncé, seria apenas uma questão meramente comercial? Arrisco o palpite de que não, pois, uma vez no patamar de estrelato em que chegou, qualquer “batidão” de pista de dança faria sucesso. Seu nome, por si só, vende! Outro fator importante é a parceria com Kendrick Lamar na faixa Freedom, uma das que mais incisivamente trata da questão racial no álbum. Kendrick é um dos grandes ativistas negros nos EUA. Sua música Alright virou um hino de resistência em um protesto em Cleveland, onde um menino de 14 anos foi preso. Acredito que Kendrick Lamar não faria essa parceria com fins unicamente comerciais.

Beyoncé não precisa da minha defesa, uma vez que como citado acima, há uma equipe muito bem articulada para defendê-la de qualquer possível ataque da imprensa a respeito de sua “nova” postura política ou qualquer outra situação que envolva sua careira. A questão é, qual a legitimidade que esses críticos, em sua maioria brancos, têm para definir o ativismo dela ou de quem quer que seja?
O argumento de Piers Morgan que aponta uma Beyoncé apolítica há cinco anos atrás é no mínimo frágil e sem sentido. A urgência da abordagem de determinados temas vêm com o desenrolar dos fatos.

O debate sobre a questão racial está novamente em ebulição nos EUA desde Agosto de 2014, quando o jovem de 18 anos Michael Brown foi assassinado por um policial branco na cidade de Ferguson, no estado americano de Missouri, acusado de roubar cigarros em uma loja de conveniência, de acordo com um relatório contraditório da polícia local. O episódio gerou inúmeros protestos. A mãe de Michael Brown, inclusive, é uma das mães que aparecem em um dos vídeos de Beyoncé.

E o que dizer sobre o caso da Igreja Africana Metodista Episcopal de Emanuel em Charleston na Carolina do Sul, onde nove pessoas negras foram assassinadas por um jovem branco de 21 anos?

quinta-feira, 10 de março de 2016

A televisão precisa mudar


A televisão está cada vez mais ultrapassada, enquanto isso a audiência no Netflix e Youtube continua subindo exponencialmente. Já se passou a época em que tínhamos que esperar um horário X para ver o que gostamos, também já não temos mais que abrir mão de ver um programa para ver outro no mesmo horário. Com os novos meios on-line, assistimos o que queremos, como queremos, onde queremos, e geralmente por um preço melhor ou até de graça.

A indústria americana que produz seriados necessita urgentemente se renovar. Hoje, se quisermos ver uma série como The Walking Dead, tem de ser no dia e no horário marcado na televisão, e esse é exatamente o problema. Muitas vezes estamos estudando, trabalhando, ou apenas não queremos ver naquele momento. Geralmente existe um horário alternativo, que possivelmente também não sirva para você. Logo, não é difícil entender porque a pirataria é um sucesso tão grande. Todo mundo sabe que ela é nociva, custa caro as produtoras, tira o crédito de quem trabalhou por aquilo, porém, única coisa que a indústria tradicional basicamente tem feito para combater, é retirando sites do ar. Da mesma maneira que qualquer um acha maconha mesmo sendo ilegal, downloads piratas são fáceis de encontrar por mais que sites sejam removidos e caçados.

Mega Filmes HD, era o site de filmes ilegais mais famoso do Brasil Ele foi retirado do ar e os donos chegaram a ficar preso por alguns dias, no entanto, a pirataria continua não foi reduzida.
A pirataria parecia algo impossível de se combater, mas aí veio o Netflix e mudou tudo. De repente é possível assistir o que quiser, quando quiser e onde quiser, por um preço muito razoável. O sucesso dela não é tão difícil de se entender, quando se ofereceu a oportunidade para as pessoas optarem entre downloads ilegais ou um banco on-line de filmes e seriados, legalizado, com boa qualidade e que apoia as produtoras, boa parte delas fez a escolha de ficar dentro da lei. A Netflix basicamente oferece tudo que um site pirata também oferece, então eu certamente prefiro o caminho que apoia a indústria.

O Youtube também cada vez mais tira as pessoas das televisões. O site de vídeos está repleto de conteúdo de qualidade (e de baixa também), onde os “canais” não precisam ser concorrentes, afinal, não é mais necessário abrir mão de um programa para ver outro, é possível ver tudo, quando quiser, gratuitamente, e de maneira que a Google ainda consiga lucrar. Recentemente a empresa ainda lançou o Youtube Red, serviço pago que custa cerca de R$40 mensais, onde se pode ver vídeos sem anúncio, baixá-los para ver offline e outras vantagens, demonstrando como este mercado on-line está se expandindo.

As publicidades estão tendo mais retorno no Youtube do que na TV. Gastos com anúncios no site cresceram 200% em 2015.
Obviamente a televisão é importantíssima para essas produtoras, pois a publicidade é a grande fonte de renda, mas isso também é adaptável para a internet. Sites como o Crackle, oferecem filmes gratuitos legalizados para ser ver, que possuem algumas pequenas propagandas durante a exibição. Talvez uma mistura entre ele e o Netflix, onde com um preço baixo e ainda com alguns poucos comerciais para sustentar as produtoras seja algo viável. Pagar um pequeno valor mensal para assistir seriados, exibindo uma ou duas propagandas no meio, com boa qualidade de vídeo e totalmente legalizado não é problema nenhum. Por isso que esses serviços simplesmente tornam a pirataria inútil.

Breaking Bad, umas das séries de maiores sucesso da história, ficou ainda mais famosa quando foi disponibilizada on-line, milhões de pessoas finalmente puderam assistir no horário que as convinha. Outro caso interessante é o de Prison Break, série que já havia sido finalizada anos atrás e agora está voltando. Após ela ser disponibilizada no Netflix, o número de visualizações foi enorme, o que mostrou a FOX como o seriado ainda era forte entre o fãs, contribuindo diretamente para o retorno da mesma. Esse clamor por Prison Break seria impossível de se descobrir se essas pessoas estivessem baixado ilegalmente a série. Dessa forma tanto a indústria quando a audiência saíram ganhando.

Netflix foi uma das grandes responsáveis pelo sucesso de Breaking Bad. Mais pessoas já assistiram a série on-line do que na televisão. O próprio diretor, Vince Gilligan, agradeceu a empresa.
O seriado Better Caul Saul  resolveu misturar TV e internet. Sempre que ela vai ao ar, logo em seguida o episódio fica disponível na Netflix, dessa forma não há razão alguma para piratear. A empresa de seriados e filmes on-line, virou esse império porque soube aproveitar a mudança de perfil do público, e agora ela própria vem fazendo produções de altíssima qualidade, como Marco Polo, Narcos e House of Cards.


Kevin Spacey, protagonista em House of Cards já disse em discurso: “nós demonstramos que aprendemos a lição que a indústria musical não aprendeu: dê às pessoas o que elas querem, quando elas querem, como elas querem, a um preço razoável, e elas irão pagar por isso em vez de roubar”.
Esse texto não tem a menor intenção em justificar a pirataria, mas sim alertar para essa mudança de hábito do consumidor. Essa caça incessante a sites piratas simplesmente não funciona, mas ao se oferecer condições razoáveis, a maioria com certeza opta por assistir seus programas por meios legais. Casos como Game of Thrones e The Walking Dead, demonstram o quão alto é o custo da pirataria, por isso está na hora dessas produtoras adotarem uma abordagem diferente, e oferecer oportunidades para o público acessar esse conteúdo de maneira que apoie a própria indústria. Os exemplos de sucesso estão aí, os fatos provam como é possível minimizar os meios ilegais, e ainda beneficiar tanto quem assiste, quanto quem produz.


Leonardo Teixeira - 10/03/2016

quinta-feira, 3 de março de 2016

O que eu ví no Japão: Mitos e Verdades


Tive a oportunidade de passar um mês e meio em Tóquio, não foi tempo suficiente para dar uma resposta definitiva a cerca dos costumes nipônicos, mas pelo menos posso dar minhas impressões. Uma das melhores coisas da viagem foi poder ver na prática se a imagem e os estereótipos são verdadeiros ou não. Portanto, aqui escreverei sobre o que é mito e o que é real, também coisas boas e ruins do Japão. Também é importante enfatizar que este texto irá fazer generalizações, e como toda generalização peca em superficialidade, não pense que tudo dito aqui é absolutamente verdade e se aplica para todos os japoneses.

Os japoneses são frios:
Esse é um mito que se escuta muito, que os japoneses são frios e distantes. Isso acabou se mostrando uma total mentira durante minha vivência por lá. Eles são receptivos, animados, gostam de sair com os amigos e bater muito papo. Obviamente os asiáticos não são calorosos como os brasileiros, afinal, eles não costumam se tocar muito, mas isso não significa que eles não tenham afeição uns pelos outros. Na verdade, acredito que o principal motivo por eles se abraçarem pouco, é por causa da timidez. Muitas vezes quando comentava como nos cumprimentamos no Brasil, não hesitavam nem um pouco em me abraçar.

O Japão é cheio de regras:
Sempre imaginei que o leste oriental era todo regrado e restritivo, acredito que muitos estrangeiros pensaram isso também. De fato, o país possui diversas regras, mas muitas delas nem são constituicionais e sim culturais. Os japoneses são extremamente educados e possuem uma grande preocupação em não incomodar as outras pessoas, mas isso não restringe de forma alguma a sua liberdade. Enquanto em países como Canadá, não se pode beber na rua, só se compra bebidas em lojas estatais e os bares não podem servir álcool após as 2 da manhã; no Japão não existe nenhuma dessas restrições, os japas adoram beber cerveja e sakê, ir para o karaokê, fazer pequenas sociais em casa, totalmente diferente da imagem “quadrada” que eles possuem.

O transporte e os serviços são excelentes:
Tóquio possui o maior metrô do mundo, que além disso é extremamente pontual. O transporte é tão bom, que muitos japoneses sequer tiram carteira de motorista. Nos serviços o padrão é o mesmo, rápido e de qualidade. Os restaurante te atendem com educação e atensiosidade. Lá você não paga nem pelo serviço, muito menos por gorjeta, o dono do estabelecimento é responsável por pagar um sálario decente aos seus funcionários, enquanto em diversos países os garçons praticamente tem de sobreviver com o que ganham por fora. Na terra do sol nascente também descobri o verdadeiro significado de “fast food”, o preço e a qualidade deles é muito acima dos “slow foods” que temos aqui.

Eles se vestem de maneira exótica:
Até vi alguns casos curiosos, no entanto, qualquer país tem “seus excêntricos”. No geral, eles se preocupam muito com a aparência, cuidam da pele e do corpo e se vestem muito bem, por isso, costumam ser bem elegantes. A juventude nipônica muitas vezes sofre com a obsessão da beleza, mas isso é algo que essa geração vem sofrendo em todos os lugares do mundo, então não vejo motivo para me aprofundar nesse assunto agora.

Eles desenham olhos grandes porque queriam tê-los:
Coloquei aquela figura no topo do texto para este tema, como todos sabem, nos animês, os personagens costumam ter olhos enormes. É muito comum se falar que a razão disso é o desejo deles de possuir tais atributos, e curiosamente é verdade. No Japão descobri que eles realmente gostam disso, eles consideram olhos grandes um sinal de beleza, ainda mais se possuirem cores mais incomuns, como verde e azul.

Agora irei falar de aspectos negativos da terra nipônica, afinal, não existe lugar perfeito.

O cigarro:
Essa provavelmente é a minha maior crítica nesse texto. Os japoneses estão muito atrasados na maneira que lidam com o cigarro. Talvez por ser brasileiro, seja mais crítico a isso, pois o Brasil é um dos países que está mais a frente nesse assunto, nosso cigarro é barato (comparado a outros países), mas mesmo assim o consumo cai ano após ano. O tabaco deixou de ser símbolo de elegância e a própria juventude o rejeita cada vez mais, resultado disso é que não existe mais áreas para fumantes há anos. Enquanto isso do outro lado do mundo, fuma-se muito, mesmo com o preço do maço alto. Ainda existe área de fumantes, e elas estão presentes em muitos restaurantes, alguns deles nem separam os não-fumantes, portanto, se você não fuma, é bem capaz de em algum momento você ficar respirando fumaça dos outros. Apesar do consumo estar caindo, eles ainda estão muito atrás nesse aspecto, como muitos fumam em lugares fechados e bares, há um grande estímulo para que novas pessoas experimentem. O maior absurdo são os garçons e garçonetes terem que trabalhar no meio desses ambientes. Em lugares como Brasil, Estados Unidos e Canadá, é proibido colocar funcionários nestas condições que ao longo prazo podem acarretar em graves problemas de saúde, porém no Japão, um país tão desenvolvido, pessoas ainda são obrigadas a trabalhar assim. Não tenho nada contra fumantes, é uma escolha pessoal, mas não acho correto os outros acabarem se tornando fumantes passivos por terem que viver nestes locais.

Eles não falam inglês:
Eles não falam mesmo, e isso se aplica a gigantesca maioria. Os japoneses que são fluentes no inglês acabam sendo admirados. É até paradoxal, a língua japonesa é cheio de palavras oriundas do anglo-saxão, e eles adoram a cultura americana, isso até os possibilita entender certas perguntas simples, mas aprender efetivamente o idioma é raro. Pelo menos eles são bem pacientes com estrangeiros e se esforçam ao máximo para se comunicar. Acredito que isso seja resquício do isolacionismo cultural que o Japão ainda possui. Afinal, apenas no século XX os japoneses se abriram efetivamente para o mundo, e apesar de serem muito receptivos, eles têm resistência a certas mudanças.

Alguns possuem a mente fechada:
Pude conhecer diversas pessoas em minha viagem, e de fato, alguns não têm muito interesse no que acontece fora do eixo leste-sudeste asiático. Eles defendem que o Japão é o melhor país do mundo, e portanto, não tem motivo para sair de lá. Uns amigos norte-americanos até que se parecem com eles né? Não acredito que exista um melhor lugar no planeta, a sua imensidão e diversidade é a sua graça, pois, mesmo com o Japão sendo um país incrível, ainda há tanto para se conhecer afora. Essas pessoas mais fechadas, claramente ainda possuem esses resquícios isolacionistas. Obviamente, esse grupo representa apenas uma parcela da população, que por sinal está diminuindo, a juventude é cada vez mais interessada no ocidente. É importante enfatizar que essas críticas não estão de maneira alguma defendendo a abdicação da cultura japonesa, que é fortíssima, bela e super interessante, afinal, você não precisa deixar as origens para poder viver novas experiências inter-culturais.

Concluindo..
Seja para visitar ou morar, o Japão é um país maravilhoso, que possui seus defeitos, mas no geral possui muito mais qualidades. Se hoje o país é pró3spero, foi porque se desenvolveu muito no último século, pois, eles já foram uma nação muito mais pobre, onde muitos não acreditariam no patamar que alcançaram atualmente. Logo, não existe povo condenado ao fracasso, não existe povo “preguiçoso”, todos podem se desenvolver se a oportunidade for dada, e quem sabe isso não aconteça também na terra do futebol e do samba.
No século XIX, um estrangeiro no Japão escreveu:

“Rico não acreditamos que ele (o Japão) algum dia será. As vantagens proporcionadas pela natureza, com exceção do clima, e o amor das próprias pessoas pela indolência e pelo prazer não permitem que isso aconteça. Os japoneses são uma raça feliz e, contentando-se com pouco, provavelmente não conseguirão muito.”


Leonardo Teixeira - 03/03/2016

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Porque eu não sofro mais por futebol


     Não vale a pena. O futebol é uma paixão intensa que muitos brasileiros têm, o problema é que essa paixão não é recíproca. Em meio a toda a crise da FIFA com CBF, com cartolas, com Conmebol, e muito mais gente, me pareceu oportuno escrever sobre esse assunto. Não me ocuparei aqui de falar sobre as recentes fraudes descobertas, até porque elas não foram surpresa nenhuma, todos nós esperávamos por isso, a diferença é que agora finalmente essa corrupção foi exposta.

     Seria suicídio deixar um título de um campeonato ser decidido com um lance ao acaso com tanto dinheiro envolvido, isso é simplesmente inviável. O futebol movimenta dinheiro demais para ficar à mercê da sorte. Não quero dizer que todos os torneios foram decididos por cartolas, mas não há duvidas que diversos foram.

     Qualquer coisa que move as pessoas através da paixão sempre atrai interessados em enriquecer a partir disso, e logo esse instrumento de paixão vira um negócio, mesmo que os ‘apaixonados’ não percebam. No futebol aconteceu exatamente isso, desde décadas atrás essa área vem se enriquecendo cada vez mais, se apoiando na paixão incondicional dos torcedores, pois sem torcida não há futebol, ou seja, não há negócio.

     A idéia desse texto não é fazer as pessoas abandonarem o futebol, eu mesmo continuo apaixonado, mas jamais como no passado. Quando eu era mais novo, até uns 15 anos, costumava ser fanático, chorava, sofria, perdia meu dia, às vezes, pelo meu clube amado. Quando cresci e amadureci, percebi que eu amava o futebol, mas o futebol não me amava. Passei a entender que futebol é um negócio, e como todo negócio, o dinheiro fala mais alto. O maior problema do torcedor é que ele ainda enxerga o nosso principal esporte com romantismo, ele ainda acha que jogadores são heróis.

     Nossos valores estão trocados, nossos heróis deveriam ser Gandhi e Einstein, não Neymar ou Ronaldo. O futebol é uma paixão, um hobby, não nossa vida. E quando começarmos a tratar o futebol dessa forma, ele vai nos tratar da mesma maneira.

     Não pense que deixarei de acompanhar meu time e sofrer por ele. Minha relação com o futebol é como aquele ex-relacionamento que você teve e se decepcionou, e que você insiste em reatar sabendo que nunca será como foi, mas você reluta em abrir mão de sua paixão.

     Desde a super controversa Copa do Mundo no Brasil, o povo brasileiro tem cada vez maisficado descrente do futebol, e como não estou aqui para ficar em cima do muro, apoio muito esse movimento. Os estádios estão esvaziados e a audiência na televisão caindo. Mas isso não quer dizer que estamos deixando de gostar do nosso esporte, estamos na verdade nos afastando desse futebol que não é o nosso, é um comércio. Um jogador reserva de time grande não pode ganhar 100 mil reais por mês, os nossos queridos times estão cada vez mais endividados, pois é impossível bancar tais custos. Os times europeus, oriundos de países com economia muito mais sólida que a nossa, tem condição de arcar com esses valores, mas não nós. Como são eles que costumam liderar as direções do esporte, nós não temos condições de segurar um jogador de destaque por mais de um ano em nosso país.

     Estou aqui para refutar o futebol de elite, o futebol milionário e fajuto, que é um grande negócio, “mas paga de” emotivo. Estou aqui pra defender o verdadeiro futebol, aquele que você joga por pura paixão, com chinelo marcando gol, com aquela bola murcha, sem espectadores, sem glamour. Esse verdadeiro futebol é o que eu amo, é o que eu defendo, é o que eu jogarei até o fim de minha vida.

     Digo sim ao verdadeiro futebol moleque, o que não possui preço, esse que me inspira, esse que eu amo, e que nenhum cartola, nenhum Blatter, nenhum presidente da CBF pode destruir. Esses velhos de colarinho branco não possuem a menor idéia do que é futebol e jamais saberão, o que é uma penameu amigo, pois  futebol é incrível. E esse esporte maravilhososó pode ser visto nas praças publicas, nos campos barrentos, não na televisão.

Leonardo Teixeira 15/06/2015

segunda-feira, 8 de junho de 2015

A Era das Franquias no Cinema

       Vivemos na era das franquias no cinema, onde qualquer filme de sucesso ganha uma sequência. Afinal, a indústriacinematográfica como qualquer outra indústria busca o lucro, e vender o quinto filme de uma franquia já consagrada é muito mais fácil do que vender algo desconhecido, mesmo que a qualidade desses longas-metragensseja questionável.
Senhor dos Anéis exigiu altos investimentos de risco e inovações tecnológicas. Após o sucesso, uma nova trilogia de prelúdio, O Hobbit, foi produzida.
       Vivemos uma escassez de novidades na telona, mas a falta de criatividade não é o único problema em Hollywood, a falta de ousadia para assumir riscos com projetos novos também. Fazer o básico sempre funcionou e enquanto der dinheiro não há porque mudar. Portanto, pouco se cria, muito se transforma, e o resultado disso são franquias intermináveis que muitas vezes tem uma grande queda de qualidade ao longo das seqüências.
Transformers, franquia que começou bem, mas a cada filme vem se degradando mais. Ainda assim, não há previsão para o encerramento da saga.
       Transformers e Piratas do Caribe são bons exemplos de franquias que começaram com filmes muito legais, mas que ao longo da saga foram se perdendo, fazendo uma sequência mais catastrófica que a outra. Piratas do Caribe 4 e Transformers 4 foram desastres de filme em relação à qualidade, mas foram um estouro de bilheteria. O quinto filme dos dois estará em cartaz nos próximos anos, o que é totalmente compreensível após ambas as franquias já terem lucrado bilhões de dólares.
Tobey Maguire (esquerda) e Andrew Garfield (direita). O homem-aranha de Tobey deveria ter ido até o sexto filme, mas parou no terceiro, já o de Garfield nem conseguiu fechar sua primeira trilogia, encerrando no segundo filme com uma história sem conclusão. 
       Uma franquia que já se prolonga há anos e que talvez seja a mais desorganizada e cheia de contradições é a dos X-Men. Onde os diversos filmes se perdem no próprio universo, até por isso a série deverá sofrer um reboot (reiniciar do zero) nos próximos anos. Falando em reboot, não tem como não comentar o caso de Homem-Aranha, que em menos de 10 anos já sofrerá o segundo reboot! Seja no homem-aranha com Tobey Maguire ou com Andrew Garfield, a falta de planejamento ou brigas entre elenco e produtores fizeram uma verdadeira bagunça de histórias incompletas. Há meses a Sony, dona dos direitos do homem-aranha no cinema, fechou parceria com a Marvel para juntá-lo com os vingadores. Esperemos agora que esse novo homem-aranha seja melhor do que os anteriores.
Star Wars foi se não a maior, foi umas das maiores franquias de todos os tempos. Em dezembro deste ano o sétimo episódio chega às telonas, contando com a volta de Harrison Ford (Han Solo), Mark Hamill (Luke Skywalker) e Carrie Fisher (Princesa Léia).
       É importante enfatizar que franquia não é sinônimo de repetição ou decadência, muitas franquias que foram sucesso estão voltando e são muito bem-vindas. Jurassic Park está voltando, com a promessa de um filme bem interessante. Mas o melhor exemplo é talvez a maior franquia de todos os tempos: Star Wars. Após 6 filmes, que apesar de altos e baixos, é uma série fantástica. E para o delírio dos fãs está voltando com uma nova trilogia, após a Disney comprar os direitos de George Lucas.
Harry Potter foi uma franquia que marcou toda uma geração, onde se viu os atores crescendo junto aos personagens ao longo dos anos. 
        Outra franquia de grande qualidade é a de Harry Potter, que marcou a infância de muitos como a minha. Após 8 filmes a história foi concluída, mas a séria deve voltar para contar novas aventuras antes de Harry ter nascido. Obviamente ver todo aquele mundo de novo será muito legal, espera-se apenas que se mantenha a qualidade.

       Usando ainda Harry Poter como referência, a franquia foi uma das primeiras a dividir o último livro em 2 filmes, tanto por questão de historia quanto financeira. O problema é que outros resolveram fazer isso sem essa necessidade. Jogos vorazes que tem se mostrado uma série bem interessante, com grande adoração do público jovem, também fez essa divisão, que talvez tenha sido desnecessária, pois apesar do último filme não ter saído ainda, o penúltimo foi um tanto fraco e devagar, tentando segurar o clímax para a segunda parte. Uma franquia que com certeza não devia ter feito essa divisão é a de Crepúsculo. Não entrarei na questão da qualidade da série, mas é um tanto óbvio que os 2 últimos filmes podiam muito bem ser apenas um só. O resultado dessa divisão foi uma enrolação chata e cansativa.
Velozes e Furiosos se tornou um fenômeno mundial, sua fórmula simples, buscando o entretenimento do público tem funcionando muito bem, afinal, mais filmes estão por vir.
       O interessante é que apesar de todas as críticas, todas as franquias citadas tiveram arrecadações imensas. Afinal, bilheteria e qualidade não andam juntas. Uma saga que já está nos cinemas há muito tempo e vem arrecadando cada vez mais é velozes e furiosos. Que mesmo após 7 filmes, ainda se tem planejamento para ir até o décimo. Apesar de ser um tanto repetitivo ao longo da seqüência, o filme de ação e corrida é uma franquia ‘honesta’, com uma história muito simples, que funciona, e não se contradiz ou decai de qualidade ao longo da saga.
A fórmula dos Vingadores, onde a maioria dos super-heróis tem um filme solo e depois todos se reúnem em um mesmo longa-metragem tem obtido receitas bilionárias.
       A franquia que não pode ficar de fora desse texto foi a que encontrou a chave do sucesso e que agora é a sensação do momento, os Vingadores e seus derivados. A saga irá se estender pelo menos até 2019. Disney/Marvel com seu ‘universo compartilhado’, onde todos os filmes têm relação e se conectam, é praticamente uma sumidade. O que é uma grande vantagem financeira, pois qualquer longa-metragem que a Marvel lança é conectada aos seus Blockbuster  (filmes de grande sucesso comercial), o que sempre garante um retorno lucrativo de seus investimentos. A D.C. que anda atrás da Marvel na competição das bilheterias, finalmente começou a repetir essa fórmula que deu certo e agora está trazendo seu próprio universo compartilhado para as telonas nos próximos anos, começando com Batman vs Superman.

       As franquias já são um sucesso desde décadas atrás, afinal, é animador assistir um filme divertido e fica esperando para ver sua continuação. Saber a hora de concluir a história da saga é importante, pois o prolongamento excessivo e a queda de qualidade são os maiores problemas enfrentados pelas franquias. Mas, como continuações sempre são muito lucrativas por piores que sejam, o melhor negócio é continuar produzindo interminavelmente mesmo...

Leonardo Teixeira  08/06/2015

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A contrarrevolução de Ghost

A banda sueca Ghost é fenômeno no submundo habitado pelos amantes do Metal e do Rock. Seus seguidores – carinhosamente chamados de “children” nos comunicados dos músicos – seguem com tanta devoção a banda que ela rapidamente se tornou sinônimo de marca lucrativa e já viajou o mundo. Do que se trata? Bom, suas letras parecem uma reencarnação sonora de filmes de terror B, aliás essas letras aliadas com a teatralidade do grupo que se passa por um culto satânico fazem com que muitos – maioria dos fãs inclusa – acreditem que é exatamente disso que se trata. De uma grande mensagem satânica com bons acordes. Será que é só isso?
Não.
Do que Ghost se trata então? Bom, grande parte das suas músicas, especialmente as do primeiro cd e os covers, são no mínimo brincadeiras. Tomar como satanismo uma música que simplesmente repete meia dúzia de palavras associadas ao sinistro em descrições do mau dignas de crianças assustadas por Goosebumps é no mínimo ingênuo. É tudo só uma grande brincadeira. E na outra parte das músicas como as inúmeras canções do segundo álbum – Infestisumam? Dentre as inúmeras possibilidades eu prefiro a que diz que se trata de um ensaio sobre a natureza humana. Ghost, através das suas metáforas musicas que – Jesus me perdoe – soam como parábolas pessimistas, pinta um quadro do homem. Talvez feio demais para que muitos olhem diretamente, mas digno de menção, sem dúvidas.
Para ilustrar bem a ideia tomemos a canção Infestissumam. Homônima do segundo albúm ela o introduz através de uma oração as avessas, terminando com a palavra icônica Infestissumam, do latim: hostil. Em uma interpretação literal se trata de uma referencia ao Anticristo e o álbum busca retratar sua chegada. Em uma interpretação aprofundada, trata-se da natureza humana e o álbum busca retrata-la. É uma zombaria, logo no início do cd se apresenta uma reza aos moldes cristãos que deveria trazer paz ao homem com sua mensagem de amor. Mas no que ela resulta? Hostilidade. A canção inverte os símbolos do cristianismo para demonstrar a corrupção sofrida pela mensagem que termina por significar o oposto do que se propunha. A natureza humana desvirtua o sagrado.
Há diversos outros exemplos, canções como Secular Haze, Per aspera ad Inferni e Idolatrine dariam ótimos exemplos e fica a recomendação para que o leitor procure as letras delas, porém nenhuma é mais icônica que Year Zero, um dos maiores sucessos da banda e de mensagem política mais explicita. E por isso que esta será o foco central desse artigo.
Primeiramente o titulo. Year Zero é assim chamada por que um novo calendário surgiria. O erguer de uma nova era começaria. Com a chegada de quem? A resposta na própria música seria Satã. Mas Satã esta sendo usado como símbolo, a maneira como ele é saudado durante o refrão – “Hail Satan” – é uma clara alusão a saudação à Hitler. A ideia então é que a ascensão de um líder supremo ao poder seria o novo ponto de contagem do tempo na história humana. A revolução é tão magnânima que deve se embrenhar em na totalidade das relações humanas e inaugurar uma nova época. O último estágio da megalomania humana. E pelo símbolo escolhido para aludir ao novo líder percebe-se que não se trata de algo positivo. Mas por quê?
 Os versos iniciais da canção dão a primeira pista. O homem é dito igual a um parasita se movendo sem olhos, o destino dele é o mesmo de um piolho. Ou seja, somos criaturas vis que não somam ao mundo, subtraímos para sobreviver. Nossa vida é corromper. Perspectiva de mudança? Não. No dia do ajuste de contas, quando a injustiça for enfrentada, a solução será todos queimarmos. O momento de redenção será só mais um momento de sofrimento em nossa existência.
Since dawn of time the fate of men is that of lice,
Equal as parasites and moving without eyes.
A day of reckoning when penance is to burn
Come down together now and say the words that you will learn
Como o verme sem percepção que o ser humano seria, não percebemos a destruição que causamos e a insustentabilidade da nossa maneira de vida. A ideia fica clara quando a banda diz: “Crestfallen kings and queens comforting in their faith / Unbeknownst to them is the presence of the wraith”. O espectro que ronda a humanidade é a revolução que virá com o colapso da ordem e que os nossos líderes preferem ignorar a presença, se confortando na sua fé cuja divindade é o poder, na crença de sua inatingibilidade e manutenção da dominação. E o pior, é que sendo tão vil o ser humano, nada positivo se erguerá dai. A banda continua: “Since fate of men is equal to the fate of lice /As new dawn rises you shalt recognize / now behold the Lord of Flies”. Quem seria o nosso novo senhor, o senhor das moscas? Esse é um dos títulos de Belzebu, demônio da religião cristã citado nos versos de introdução a canção junto com uma série de nomes de outras entidades malignas. Mas se acreditarmos que a banda realmente é a porta voz de um culto do maligno eles não cometeriam o deslize de no refrão dizer que Satã se ergueria e em um verso diferente se referir a outro senhor das trevas. A verdade é que essa é uma menção a obra de Willian Golding, “O senhor das moscas”, em que a natureza humana é retratada talvez de maneira pior que nessa canção e que vale com certeza uma conferida.
Finalizando, ao termino da música antes de puxar o refrão por uma última vez, a banda diz:.
“He will tremble the nations
Kingdoms to fall one by one
Victim to fall for temptations
A daughter to fall for a son
The ancient serpent deceiver
The masses standing in awe
He will ascend to the heavens
Above the stars of God”
Talvez a mensagem literal é de que Satã andará pela Terra e as massas o saudarão. Mas a mensagem política também é, como sempre, mais atraente. No primeiro verso, o grupo diz que ele abalará as nações e os reinos cairão um por um. Reinos e nações não são sinônimos. A nação é uma entidade não física difícil de ser definida, fruto direto do sentimento nacionalista. Movimentos de contestação da ordem capitalista vigente como os anarquistas e comunistas apontam o nacionalismo como um dos seus inimigos, eles são internacionais por excelência e negam a identidade nacional em prol de uma de classe. O revolucionário bem sucedido deveria acabar com o nacionalismo assim como satã na música. Quanto aos reinos, não há palavra melhor para aludir a uma organização política hierárquica e antiga e o caminho da revolução é o domínio global, reinos, aludindo aos Estados que segregam a humanidade ao redor do mundo, não terão mais espaço.
Porém, a natureza do homem já foi dita como parasitária e negativa. A revolução falhará. Aquele que se levanta por justiça será conduzido pelo líder para uma nova ordem injusta. Como a banda diz, a vítima cairá em tentação, a antiga serpente nos enganou mais uma vez com a sedução do poder e o oprimido se tornou o novo opressor. O líder, que deveria conduzir a humanidade para um caminho melhor, seguirá sua ascensão megalomaníaca enquanto as massas em awe – palavra do inglês que pode significar tanto temor quanto reverência, subindo mais alto que o possível, subindo a cima das estrelas de Deus, agora ele é quem deve ser adorado.
No final, não há esperança para a humanidade. A mensagem é de que a revolução só conduzira a uma ordem já corrompida porque os homens são criaturas por essência degeneradas.
Depois de tudo, acredito que você possa até continuar achando que a banda fala de satanismo. Mas por preferência pessoal. É mais fácil de aceitar do que pensar que o ser humano possa ser remotamente próximo a isso.


 Lucas Manuel - 08/05/2014

quarta-feira, 26 de março de 2014

Análise do Oscar 2014

Gostaria de deixar bem claro que esta análise é a minha opinião, sinta-se à vontade para concordar e discordar, afinal, qualquer comentário é muito bem-vindo aqui.

O Oscar 2014 foi a 86ª cerimônia de sua história. 12 Anos de Escravidão levou o prêmio de melhor filme, mas Gravidade foi o que levou mais estatuetas, 7 delas.

Comecemos a análise pelos prêmios de menor importância:


Gravidade levou 7 estatuetas, dominou as chamadas categorias "técnicas", levando:

- Melhor Montagem
- Melhores Efeitos Visuais
- Melhor Fotografia
- Melhor Edição de Som
- Melhor Mixagem de Som
- Melhor Trilha Sonora
- Melhor Diretor

As estatuetas "técnicas" conquistadas foram merecidíssmas, o filme conta com belos efeitos visuais, mergulhando o espectador na trama. O conjunto da obra acabou premiando Alfonso Cuarón, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor, a estatueta mais importante conquistada pelo filme na premiação. Gravidade possui ação incessante e vale muito a pena assistir os belos efeitos especiais. A sua indicação foi muito justa, mas o filme realmente não mereceu levar o prêmio.



O Grande Gatsby levou 2 estatuetas:

- Melhor Direção de Arte
- Melhor Figurino

Apesar de ter sido um filme muito contestado, O Grande Gatsby conta com um visual deslumbrante, tanto o cenário, quanto o figurino, o filme dá a sensação de acontecer num mundo fictício, lúdico e belo.
Destaque para a atuação de Leonardo DiCaprio, que apesar ter sido indicado a melhor ator pelo Lobo de Wall Street, foi muito bem como Jay Gatsby.




Vejamos agora os prêmios de melhores atores:
(Melhor atriz coadjuvante será discutida mais a frente)
Clube de Compras Dallas levou a estatueta de Melhor Maquiagem e Cabelo, mas seu grande destaque foi:

- Melhor Ator Coadjuvante - Jared Leto
- Melhor Ator - Matthew McConaughey

Jared Leto teve uma grande atuação em Clube de Compra Dallas, fazendo o papel de um homossexual com HIV. Na minha opinião, sua indicação é mais do que merecida, mas Jonah Hill (O Lobo de Wall Street) merecia ter levado o prêmio de melhor ator coadjuvante. Matthew McConaughey, que perdeu 20 quilos para as filmagens, teve um atuação incrível. Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street) poderia ter levado o prêmio também, mas McConaughey ter ganho não foi nenhuma injustiça. Clube de Compras Dallas, baseado em uma história real, aborda a questão do homossexualismo e da Aids. Sua indicação a melhor filme do ano não é nenhuma surpresa, se ganhasse a estatueta não seria um erro, pois já houveram anos em que os filmes vencedores do Oscar era bem mais fracos. Um excelente filme que tem de ser assistido.


Blue Jasmine, de Woody Allen levou 1 estatueta:

- Melhor Atriz - Cate Blanchett

Cate Blanchett, interpreta uma ex-rica, que após perder o marido enfrenta os problemas cotiadianos de uma classe média-baixa. Cate certamente mereceu o prêmio, sendo ela o ponto mais forte do filme. Blue Jasmine, mais uma tragédia romântica de Woody Allen, é bom, nada mais, nada menos. Está longe de ser um dos melhores romances do diretor, mas ainda vale a pena assistir as cenas cômicas que Cate Blanchett é obrigada a viver em Blue Jasmine.



Melhor filme estrangeiro:

A Grande Beleza, produção italiana, é um belíssimo longa-metragem vencedor de vários prêmios europeus e o Oscar de melhor filme estrangeiro certamente pertencia aos italianos. Toni Servillo, que merecia pelo menos uma indicação a melhor ator, incorpora um escritor infeliz que há décadas atrás escreveu um livro de sucesso e desde então nunca mais produziu outra obra. A Grande Beleza retrata bem a alta sociedade italiana, com seus luxos, fama, privilégios, mas que ainda assim é infeliz. Um filme encantador e cômico, que com certeza merece ser assistido.





Melhor Roteiro Original:
(Melhor roteiro adaptado mais a frente)


"Ela" retrata um romance futurista entre Theodore (Joaquin Phoenix) e um computador chamado Samantha. O roteiro de Ela é realmente belíssimo, o prêmio realmente é seu. A indicação a melhor filme é até justa, mas já se sabia que não iria ganhar. A bela voz de Scarllet Johanson, interpretando o computador, é também destaque para o filme. "Ela" é um romance interessante, curioso e bonito, um filme muito agradável de se ver.







Melhor Filme:
12 anos de Escravidão ganhou vários prêmios:

- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Atriz Coadjuvante - Lupita Nyong'o
- Melhor Filme

O roteiro de 12 anos de escravidão não é surpreendente, mas sua vitória não é nenhum absurdo. Lobo de Wall Street ou até Capitão Phillips poderiam ter ganho também. De qualquer forma, nenhum deles supera Ela (vencedor do melhor roteiro original). Já, Lupita Nyong'o mereceu muito a estatueta de melhor atriz coadjuvante, realizou grande interpretação de uma jovem escrava chamada Patsey. Quanto a vitória de melhor filme, 12 anos de escravidão é de fato um excelente longa-metragem, talvez não seja o melhor do ano de 2014, mas sua escolha não é nenhum absurdo. A sua vitória era previsível pelo seu tema sem polêmicas, com compromisso social, agradando a academia do Oscar, que muitas vezes prefere escolher o filme politicamente correto, do que o verdadeiro melhor do ano. Independente das polêmicas, o longa retrata a emocionante história de Solomon Northup, um negro livre que é sequestrado para trabalhar como escravo, é uma história que merece muito ser assistida.



Destaques:
Trapaça certamente é um ótimo filme e mereceu sua indicação a melhor filme do ano. O longa realmente não mereceu ganhar a estatueta, houveram concorrentes melhores, mas o que não deprecia a qualidade dele. O elenco de Trapaça merece destaque, Cristian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, todos indicados aos prêmios de melhores atores, tendo grandes atuações. Nenhum deles ganhou, mas apenas porque haviam candidatos melhores. O forte elenco interpreta a história de 2 trapaceiros, que após serem pegos pelo FBI tentando enganar clientes, são forçados a entregar outros trapaceiros para a polícia. Trapaça pode não ter sido o melhor do ano, mas certamente merece ser assistido.



Capitão Phillips conta com grandes atuações de Tom Hanks, mesmo não tendo sido indicado a melhor ator ,e Barkhad Abdi, que foi indicado a melhor ator coadjuvante. O filme conta a história de um sequestro de um navio cargueiro por piratas na Somália. Apesar das diversas críticas quanto a precisão histórica, o filme é bom. A sua indicação a melhor filme não foi um erro, mas a sua não indicação também não seria um absurdo, visto que o filme estava muito distante da qualidade de outros concorrentes. Ainda assim, assistir Capitão Phillips é válido e está longe de ser perda de tempo.





O Lobo de Wall Street é a grande polêmica da premiação, tendo ocorrido grande campanha negativa contra o filme, não apenas pelas cenas de sexo, drogas, lavagem de dinheiro, entre outros, mas também pelo enriquecimento de Jordan Belfort com a divulgação de sua história nos cinemas. Quanto a qualidade do filme, é inconstetável a sua excelência. Leonardo DiCaprio, interpretando Belfort, poderia ter ganho o Oscar de melhor ator, mas sua derrota para Matthew McConaughey não foi injusta. Jonah Hill, interpretando Doonie Azoff, melhor amigo de Jordan na história, também teve grande atuação e na minha opinião merecia ter levado o Oscar de melhor ator coadjuvante. O Lobo de Wall Street mostra o esbanjamento da riqueza de um milionário de Wall Street, que assim como muitos é pego pela Receita Federal. O filme é completo, interessante, engraçado, muito bem dirigido por Martin Scorsese e na minha opinião  é o melhor do ano de 2014, tendo não levado a estatueta de melhor filme pela suas diversas polêmicas. Afinal, é de consenso geral a preferência da academia pelos filmes politicamente corretos.


Veja a lista completa de indicados e vencedores do Oscar 2014 no site do uol:
http://cinema.uol.com.br/noticias/redacao/2014/03/03/veja-os-vencedores-do-oscar-2014.htm


Leonardo Teixeira 26/03/2014

 
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