A
banda sueca Ghost é fenômeno no submundo habitado pelos amantes do Metal e do
Rock. Seus seguidores – carinhosamente chamados de “children” nos comunicados
dos músicos – seguem com tanta devoção a banda que ela rapidamente se tornou
sinônimo de marca lucrativa e já viajou o mundo. Do que se trata? Bom, suas
letras parecem uma reencarnação sonora de filmes de terror B, aliás essas
letras aliadas com a teatralidade do grupo que se passa por um culto satânico
fazem com que muitos – maioria dos fãs inclusa – acreditem que é exatamente
disso que se trata. De uma grande mensagem satânica com bons acordes. Será que
é só isso?
Não.
Do
que Ghost se trata então? Bom, grande parte das suas músicas, especialmente as
do primeiro cd e os covers, são no mínimo brincadeiras. Tomar como satanismo
uma música que simplesmente repete meia dúzia de palavras associadas ao
sinistro em descrições do mau dignas de crianças assustadas por Goosebumps é no mínimo ingênuo. É tudo
só uma grande brincadeira. E na outra parte das músicas como as inúmeras
canções do segundo álbum – Infestisumam?
Dentre as inúmeras possibilidades eu prefiro a que diz que se trata de um
ensaio sobre a natureza humana. Ghost, através das suas metáforas musicas que –
Jesus me perdoe – soam como parábolas pessimistas, pinta um quadro do homem.
Talvez feio demais para que muitos olhem diretamente, mas digno de menção, sem
dúvidas.
Para
ilustrar bem a ideia tomemos a canção Infestissumam.
Homônima do segundo albúm ela o introduz através de uma oração as avessas, terminando
com a palavra icônica Infestissumam,
do latim: hostil. Em uma interpretação literal se trata de uma referencia ao
Anticristo e o álbum busca retratar sua chegada. Em uma interpretação
aprofundada, trata-se da natureza humana e o álbum busca retrata-la. É uma
zombaria, logo no início do cd se apresenta uma reza aos moldes cristãos que
deveria trazer paz ao homem com sua mensagem de amor. Mas no que ela resulta?
Hostilidade. A canção inverte os símbolos do cristianismo para demonstrar a
corrupção sofrida pela mensagem que termina por significar o oposto do que se
propunha. A natureza humana desvirtua o sagrado.
Há
diversos outros exemplos, canções como Secular
Haze, Per aspera ad Inferni e Idolatrine dariam ótimos exemplos e fica
a recomendação para que o leitor procure as letras delas, porém nenhuma é mais
icônica que Year Zero, um dos maiores
sucessos da banda e de mensagem política mais explicita. E por isso que esta
será o foco central desse artigo.
Primeiramente
o titulo. Year Zero é assim chamada
por que um novo calendário surgiria. O erguer de uma nova era começaria. Com a
chegada de quem? A resposta na própria música seria Satã. Mas Satã esta sendo
usado como símbolo, a maneira como ele é saudado durante o refrão – “Hail Satan” – é uma clara alusão a
saudação à Hitler. A ideia então é que a ascensão de um líder supremo ao poder
seria o novo ponto de contagem do tempo na história humana. A revolução é tão
magnânima que deve se embrenhar em na totalidade das relações humanas e
inaugurar uma nova época. O último estágio da megalomania humana. E pelo
símbolo escolhido para aludir ao novo líder percebe-se que não se trata de algo
positivo. Mas por quê?
Os versos iniciais da canção dão a primeira
pista. O homem é dito igual a um parasita se movendo sem olhos, o destino dele
é o mesmo de um piolho. Ou seja, somos criaturas vis que não somam ao mundo, subtraímos
para sobreviver. Nossa vida é corromper. Perspectiva de mudança? Não. No dia do
ajuste de contas, quando a injustiça for enfrentada, a solução será todos queimarmos.
O momento de redenção será só mais um momento de sofrimento em nossa
existência.
“Since dawn of time the fate of men is that of lice,
Equal as parasites and moving without eyes.
A day of reckoning when penance is to burn
Come down together now and say the words that you will learn”
Equal as parasites and moving without eyes.
A day of reckoning when penance is to burn
Come down together now and say the words that you will learn”
Como
o verme sem percepção que o ser humano seria, não percebemos a destruição que causamos e a insustentabilidade
da nossa maneira de vida. A ideia fica clara quando a banda diz: “Crestfallen kings and queens comforting in their faith / Unbeknownst to them
is the presence of the wraith”. O
espectro que ronda a humanidade é a revolução que virá com o colapso da ordem e
que os nossos líderes preferem ignorar a presença, se confortando na sua fé
cuja divindade é o poder, na crença de sua inatingibilidade e manutenção da
dominação. E o pior, é que sendo tão vil o ser humano, nada positivo se erguerá
dai. A banda continua: “Since
fate of men is equal to the fate of lice /As new dawn rises you shalt recognize
/ now behold the Lord of Flies”. Quem
seria o nosso novo senhor, o senhor das moscas? Esse é um dos títulos de
Belzebu, demônio da religião cristã citado nos versos de introdução a canção junto
com uma série de nomes de outras entidades malignas. Mas se acreditarmos que a
banda realmente é a porta voz de um culto do maligno eles não cometeriam o
deslize de no refrão dizer que Satã se ergueria e em um verso diferente se
referir a outro senhor das trevas. A verdade é que essa é
uma menção a obra de Willian Golding, “O senhor das moscas”, em que a natureza
humana é retratada talvez de maneira pior que nessa canção e que vale com
certeza uma conferida.
Finalizando,
ao termino da música antes de puxar o refrão por uma última vez, a banda diz:.
“He will tremble the nations
Kingdoms to fall one by one
Victim to fall for temptations
A daughter to fall for a son
The ancient serpent deceiver
The masses standing in awe
He will ascend to the heavens
Above the stars of God”
Kingdoms to fall one by one
Victim to fall for temptations
A daughter to fall for a son
The ancient serpent deceiver
The masses standing in awe
He will ascend to the heavens
Above the stars of God”
Talvez
a mensagem literal é de que Satã andará pela Terra e as massas o saudarão. Mas
a mensagem política também é, como sempre, mais atraente. No primeiro verso, o
grupo diz que ele abalará as nações e os reinos cairão um por um. Reinos e
nações não são sinônimos. A nação é uma entidade não física difícil de ser
definida, fruto direto do sentimento nacionalista. Movimentos de contestação da
ordem capitalista vigente como os anarquistas e comunistas apontam o
nacionalismo como um dos seus inimigos, eles são internacionais por excelência
e negam a identidade nacional em prol de uma de classe. O revolucionário bem
sucedido deveria acabar com o nacionalismo assim como satã na música. Quanto
aos reinos, não há palavra melhor para aludir a uma organização política
hierárquica e antiga e o caminho da revolução é o domínio global, reinos,
aludindo aos Estados que segregam a humanidade ao redor do mundo, não terão
mais espaço.
Porém,
a natureza do homem já foi dita como parasitária e negativa. A revolução
falhará. Aquele que se levanta por justiça será conduzido pelo líder para uma
nova ordem injusta. Como a banda diz, a vítima cairá em tentação, a antiga
serpente nos enganou mais uma vez com a sedução do poder e o oprimido se tornou
o novo opressor. O líder, que deveria conduzir a humanidade para um caminho melhor,
seguirá sua ascensão megalomaníaca enquanto as massas em awe – palavra do inglês que pode significar tanto temor quanto
reverência, subindo mais alto que o possível, subindo a cima das estrelas de
Deus, agora ele é quem deve ser adorado.
No final, não há esperança para a
humanidade. A mensagem é de que a revolução só conduzira a uma ordem já
corrompida porque os homens são criaturas por essência degeneradas.
Depois de tudo, acredito que você
possa até continuar achando que a banda fala de satanismo. Mas por preferência
pessoal. É mais fácil de aceitar do que pensar que o ser humano possa ser
remotamente próximo a isso.
Lucas Manuel - 08/05/2014
Lucas Manuel - 08/05/2014

quinta-feira, maio 08, 2014
Unknown
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3 comentários :
O texto foi muito bem redigido. Muito claro!
É um tema assustador rs
E, igual a você, prefiro pensar que a banda fala tão somente de satanismo, a "pensar que o ser humano possa ser remotamente próximo" ao que a banda discorre em suas músicas.
Grande Lucas,
A construção de um imaginário sem base sólida de conhecimento é como uma casinha de sapé, qualquer vento um pouco mais forte vira uma tempestade.
Os ignorantes são prezas fáceis em qualquer sistema de informação, acreditam no que lhe são impostos, sem contestação, o que os tornam manipuláveis (sem ao menos perceberem)... Lembro-me do mito da caverna...
As desconstruções devem ser de forma didática, eufêmica e metafórica, como realizado no texto acima.
Parabéns pela obra!
Sucesso!
Lendo esse texto com um grande atraso. Fiquei encucada com a rápida ascensão daquela banda esquisita, que fez o show mais dormível do Rock in Rio, mas agora entendo um pouco o fascínio em volta dela. Nada muito novo, afinal. Enfim, ótima análise, fiquei super absorvida pelo texto. Com certeza vou levar essas informações em conta da próxima vez que escutar algo pretensamente satanista.
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