quinta-feira, 8 de maio de 2014

A contrarrevolução de Ghost

A banda sueca Ghost é fenômeno no submundo habitado pelos amantes do Metal e do Rock. Seus seguidores – carinhosamente chamados de “children” nos comunicados dos músicos – seguem com tanta devoção a banda que ela rapidamente se tornou sinônimo de marca lucrativa e já viajou o mundo. Do que se trata? Bom, suas letras parecem uma reencarnação sonora de filmes de terror B, aliás essas letras aliadas com a teatralidade do grupo que se passa por um culto satânico fazem com que muitos – maioria dos fãs inclusa – acreditem que é exatamente disso que se trata. De uma grande mensagem satânica com bons acordes. Será que é só isso?
Não.
Do que Ghost se trata então? Bom, grande parte das suas músicas, especialmente as do primeiro cd e os covers, são no mínimo brincadeiras. Tomar como satanismo uma música que simplesmente repete meia dúzia de palavras associadas ao sinistro em descrições do mau dignas de crianças assustadas por Goosebumps é no mínimo ingênuo. É tudo só uma grande brincadeira. E na outra parte das músicas como as inúmeras canções do segundo álbum – Infestisumam? Dentre as inúmeras possibilidades eu prefiro a que diz que se trata de um ensaio sobre a natureza humana. Ghost, através das suas metáforas musicas que – Jesus me perdoe – soam como parábolas pessimistas, pinta um quadro do homem. Talvez feio demais para que muitos olhem diretamente, mas digno de menção, sem dúvidas.
Para ilustrar bem a ideia tomemos a canção Infestissumam. Homônima do segundo albúm ela o introduz através de uma oração as avessas, terminando com a palavra icônica Infestissumam, do latim: hostil. Em uma interpretação literal se trata de uma referencia ao Anticristo e o álbum busca retratar sua chegada. Em uma interpretação aprofundada, trata-se da natureza humana e o álbum busca retrata-la. É uma zombaria, logo no início do cd se apresenta uma reza aos moldes cristãos que deveria trazer paz ao homem com sua mensagem de amor. Mas no que ela resulta? Hostilidade. A canção inverte os símbolos do cristianismo para demonstrar a corrupção sofrida pela mensagem que termina por significar o oposto do que se propunha. A natureza humana desvirtua o sagrado.
Há diversos outros exemplos, canções como Secular Haze, Per aspera ad Inferni e Idolatrine dariam ótimos exemplos e fica a recomendação para que o leitor procure as letras delas, porém nenhuma é mais icônica que Year Zero, um dos maiores sucessos da banda e de mensagem política mais explicita. E por isso que esta será o foco central desse artigo.
Primeiramente o titulo. Year Zero é assim chamada por que um novo calendário surgiria. O erguer de uma nova era começaria. Com a chegada de quem? A resposta na própria música seria Satã. Mas Satã esta sendo usado como símbolo, a maneira como ele é saudado durante o refrão – “Hail Satan” – é uma clara alusão a saudação à Hitler. A ideia então é que a ascensão de um líder supremo ao poder seria o novo ponto de contagem do tempo na história humana. A revolução é tão magnânima que deve se embrenhar em na totalidade das relações humanas e inaugurar uma nova época. O último estágio da megalomania humana. E pelo símbolo escolhido para aludir ao novo líder percebe-se que não se trata de algo positivo. Mas por quê?
 Os versos iniciais da canção dão a primeira pista. O homem é dito igual a um parasita se movendo sem olhos, o destino dele é o mesmo de um piolho. Ou seja, somos criaturas vis que não somam ao mundo, subtraímos para sobreviver. Nossa vida é corromper. Perspectiva de mudança? Não. No dia do ajuste de contas, quando a injustiça for enfrentada, a solução será todos queimarmos. O momento de redenção será só mais um momento de sofrimento em nossa existência.
Since dawn of time the fate of men is that of lice,
Equal as parasites and moving without eyes.
A day of reckoning when penance is to burn
Come down together now and say the words that you will learn
Como o verme sem percepção que o ser humano seria, não percebemos a destruição que causamos e a insustentabilidade da nossa maneira de vida. A ideia fica clara quando a banda diz: “Crestfallen kings and queens comforting in their faith / Unbeknownst to them is the presence of the wraith”. O espectro que ronda a humanidade é a revolução que virá com o colapso da ordem e que os nossos líderes preferem ignorar a presença, se confortando na sua fé cuja divindade é o poder, na crença de sua inatingibilidade e manutenção da dominação. E o pior, é que sendo tão vil o ser humano, nada positivo se erguerá dai. A banda continua: “Since fate of men is equal to the fate of lice /As new dawn rises you shalt recognize / now behold the Lord of Flies”. Quem seria o nosso novo senhor, o senhor das moscas? Esse é um dos títulos de Belzebu, demônio da religião cristã citado nos versos de introdução a canção junto com uma série de nomes de outras entidades malignas. Mas se acreditarmos que a banda realmente é a porta voz de um culto do maligno eles não cometeriam o deslize de no refrão dizer que Satã se ergueria e em um verso diferente se referir a outro senhor das trevas. A verdade é que essa é uma menção a obra de Willian Golding, “O senhor das moscas”, em que a natureza humana é retratada talvez de maneira pior que nessa canção e que vale com certeza uma conferida.
Finalizando, ao termino da música antes de puxar o refrão por uma última vez, a banda diz:.
“He will tremble the nations
Kingdoms to fall one by one
Victim to fall for temptations
A daughter to fall for a son
The ancient serpent deceiver
The masses standing in awe
He will ascend to the heavens
Above the stars of God”
Talvez a mensagem literal é de que Satã andará pela Terra e as massas o saudarão. Mas a mensagem política também é, como sempre, mais atraente. No primeiro verso, o grupo diz que ele abalará as nações e os reinos cairão um por um. Reinos e nações não são sinônimos. A nação é uma entidade não física difícil de ser definida, fruto direto do sentimento nacionalista. Movimentos de contestação da ordem capitalista vigente como os anarquistas e comunistas apontam o nacionalismo como um dos seus inimigos, eles são internacionais por excelência e negam a identidade nacional em prol de uma de classe. O revolucionário bem sucedido deveria acabar com o nacionalismo assim como satã na música. Quanto aos reinos, não há palavra melhor para aludir a uma organização política hierárquica e antiga e o caminho da revolução é o domínio global, reinos, aludindo aos Estados que segregam a humanidade ao redor do mundo, não terão mais espaço.
Porém, a natureza do homem já foi dita como parasitária e negativa. A revolução falhará. Aquele que se levanta por justiça será conduzido pelo líder para uma nova ordem injusta. Como a banda diz, a vítima cairá em tentação, a antiga serpente nos enganou mais uma vez com a sedução do poder e o oprimido se tornou o novo opressor. O líder, que deveria conduzir a humanidade para um caminho melhor, seguirá sua ascensão megalomaníaca enquanto as massas em awe – palavra do inglês que pode significar tanto temor quanto reverência, subindo mais alto que o possível, subindo a cima das estrelas de Deus, agora ele é quem deve ser adorado.
No final, não há esperança para a humanidade. A mensagem é de que a revolução só conduzira a uma ordem já corrompida porque os homens são criaturas por essência degeneradas.
Depois de tudo, acredito que você possa até continuar achando que a banda fala de satanismo. Mas por preferência pessoal. É mais fácil de aceitar do que pensar que o ser humano possa ser remotamente próximo a isso.


 Lucas Manuel - 08/05/2014

3 comentários :

Anônimo disse...

O texto foi muito bem redigido. Muito claro!
É um tema assustador rs
E, igual a você, prefiro pensar que a banda fala tão somente de satanismo, a "pensar que o ser humano possa ser remotamente próximo" ao que a banda discorre em suas músicas.

Anônimo disse...

Grande Lucas,
A construção de um imaginário sem base sólida de conhecimento é como uma casinha de sapé, qualquer vento um pouco mais forte vira uma tempestade.
Os ignorantes são prezas fáceis em qualquer sistema de informação, acreditam no que lhe são impostos, sem contestação, o que os tornam manipuláveis (sem ao menos perceberem)... Lembro-me do mito da caverna...
As desconstruções devem ser de forma didática, eufêmica e metafórica, como realizado no texto acima.
Parabéns pela obra!
Sucesso!

Beatriz Felix disse...

Lendo esse texto com um grande atraso. Fiquei encucada com a rápida ascensão daquela banda esquisita, que fez o show mais dormível do Rock in Rio, mas agora entendo um pouco o fascínio em volta dela. Nada muito novo, afinal. Enfim, ótima análise, fiquei super absorvida pelo texto. Com certeza vou levar essas informações em conta da próxima vez que escutar algo pretensamente satanista.

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