terça-feira, 3 de maio de 2016

Novo álbum de Beyoncé: É marketing ou não?


Muitas das músicas de Beyoncé, desde os tempos de Destiny’s Child, trataram sobre empoderamento feminino, com músicas como Independent Women, Single Ladies, Run The World (Girls), entre outras.

Em Fevereiro deste ano, Beyoncé lançou de surpresa o single Formation e, como não poderia ser diferente, causou um frisson nas redes sociais e na crítica especializada por apresentar uma postura diferente da apresentada em trabalhos anteriores. Beyoncé parece finalmente estar engajada na questão racial, da qual foi sempre questionada por um suposto processo de embraquecimento. Mas isso não ficou impune, já que muitos torceram o nariz para o vídeo da música no qual ela claramente denuncia o genocídio de jovens negros por parte da polícia de seu país.

O programa humorístico estadunidense Saturnday Night Live fez um esquete incrível, onde a partir do clipe de Formation o mundo teria finalmente descoberto que Beyoncé é negra. Genial! Cabe aqui a nota de que faltam bons programas de humor como este na televisão brasileira.

Apresentação no Superbowl desse ano.
Na apresentação do Super Bowl na qual foi convidada pela banda britânica Coldplay para uma participação, Beyoncé mais parecia a atração principal, não só pelo seu domínio de palco, mas também pela polêmica gerada pelo single, ainda mais com suas bailarinas usando um figurino que fez referência aos Panteras Negras! Um ultraje para muitos, como a jornalista Tomi Lahren, que afirmou em seu programa, The Final Thoughts, que Beyoncé estaria fazendo apologia à violência. Jura?

 Com uma nova turnê anunciada para Abril, levando o mesmo nome do tão comentado single, era de se esperar que a questão racial fosse fortemente apresentada nas performances e no novo álbum que estava para ser lançado. No último dia 23, com toda a pompa a HBO levou um especial de uma hora de duração com todas as músicas do novo álbum, “Lemonade”, unidas em uma espécie de média metragem, onde se confirmou o teor politico já esperado.

Foi a vez do Jornalista britânico Piers Morgan fazer duras críticas. Segundo Morgan, que a entrevistou há cinco anos, usar as mães de jovens negros assassinados em um dos seus vídeos seria mais um artifício para vender álbuns e “encher ainda mais o bolso de dinheiro”. Em sua declaração, o jornalista disse também que preferia Beyoncé “menos inflamada”, ou seja, menos engajada.

As mães de Michael Brown e Travyon Martin, assassinados por policiais nos Estados Unidos.
Algo que não deve se deixar de mencionar é que os dois jornalistas citados acima são brancos. A pergunta que não quer calar é, por que tanto esses jornalistas, quanto outras pessoas, ficaram tão incomodados com o fato de uma artista do alcance de Beyoncé tratar tão abertamente sobre o tema da questão racial?

Estaria Beyoncé desautorizada de falar sobre o racismo apenas por não ter se envolvido na militância anteriormente?

Vele lembrar que a cantora Nina Simone em meados dos anos 60 foi uma das porta-vozes na batalha pelos direitos civis dos negros norte americanos, ao lado de figuras como Malcom X e Martin Luther King. Nina Simone usou a música como resistência. Mississipi Goddam foi uma das músicas que inclusive chegou a ser proibida em alguns estados, pelo seu forte conteúdo político em sua letra afiada com direito a um palavrão, algo inadmissível para os padrões da época. Sua militância lhe custou o estrelato, boicotada por diversos veículos, e quase lhe custou a vida, já que muitas pessoas ligadas às lideranças do movimento pelos direitos civis foram assassinadas.
Não estou querendo dizer que se trata da mesma coisa, até porque os tempos são outros e os mecanismos de racismo modificaram-se. E se Beyoncé pode fazer o que faz, é porque houve no passado uma Nina Simone.

A eficiente equipe de Beyoncé:

Que Beyoncé é a rainha do marketing, todos nós sabemos. Há uma excelente equipe por trás da cantora que, quando não consegue blindar determinados “vazamentos” de sua vida pessoal, usam-nos a seu favor fazendo com que lucre ainda mais com isso.

Imagens do video de divulgação do remix de Flawless.
Os mais atentos ao mundo das celebridades vão se lembrar do episódio em que as câmeras de segurança do elevador do Standard Hotel, em Nova Iorque, após um baile de gala, registrou a irmã mais nova de Beyoncé, Solange Knowles, agredindo o rapper Jay-Z, marido da estrela. Foi um grande escândalo e muito se especulou, mas o motivo real da confusão não foi divulgado. Sua equipe fez mais um bom trabalho. E não é que meses depois a “explicação” da briga, quando todos já haviam-na esquecido, estava no remix da música Flawless! Beyoncé ainda lucrou com a invasão de sua vida pessoal. Marketing é com ela mesma. Arrisco a dizer que na atualidade poucas artistas gerenciam tão bem suas carreiras.

No entanto, esse excesso de marketing na vida pessoal e artística de Beyoncé faz com que muitos não deem crédito à genuinidade de suas ações. Mas isso seria o suficiente para acusa-la de se apropriar de um tema tão delicado quanto a questão racial visando apenas o lucro?


Ativismo de conveniência?

Usar um tema social como racismo para lucrar seria no mínimo perverso, mas infelizmente não seria a primeira vez. Aqui mesmo no Brasil a grife UseHulk, do apresentador Luciano Hulk, entrou de carona no caso do jogador Daniel Alves em 2014 e lançou uma coleção de camisetas com o slogan “somos todos macacos”. Mais oportunismo impossível!

Mas no caso de Beyoncé, seria apenas uma questão meramente comercial? Arrisco o palpite de que não, pois, uma vez no patamar de estrelato em que chegou, qualquer “batidão” de pista de dança faria sucesso. Seu nome, por si só, vende! Outro fator importante é a parceria com Kendrick Lamar na faixa Freedom, uma das que mais incisivamente trata da questão racial no álbum. Kendrick é um dos grandes ativistas negros nos EUA. Sua música Alright virou um hino de resistência em um protesto em Cleveland, onde um menino de 14 anos foi preso. Acredito que Kendrick Lamar não faria essa parceria com fins unicamente comerciais.

Beyoncé não precisa da minha defesa, uma vez que como citado acima, há uma equipe muito bem articulada para defendê-la de qualquer possível ataque da imprensa a respeito de sua “nova” postura política ou qualquer outra situação que envolva sua careira. A questão é, qual a legitimidade que esses críticos, em sua maioria brancos, têm para definir o ativismo dela ou de quem quer que seja?
O argumento de Piers Morgan que aponta uma Beyoncé apolítica há cinco anos atrás é no mínimo frágil e sem sentido. A urgência da abordagem de determinados temas vêm com o desenrolar dos fatos.

O debate sobre a questão racial está novamente em ebulição nos EUA desde Agosto de 2014, quando o jovem de 18 anos Michael Brown foi assassinado por um policial branco na cidade de Ferguson, no estado americano de Missouri, acusado de roubar cigarros em uma loja de conveniência, de acordo com um relatório contraditório da polícia local. O episódio gerou inúmeros protestos. A mãe de Michael Brown, inclusive, é uma das mães que aparecem em um dos vídeos de Beyoncé.

E o que dizer sobre o caso da Igreja Africana Metodista Episcopal de Emanuel em Charleston na Carolina do Sul, onde nove pessoas negras foram assassinadas por um jovem branco de 21 anos?

1 comentários :

Anônimo disse...

muito bom o texto, talves foi um dos melhores argumentos e pontos de vistas usados em texto sobre esse tema, além de reflexão podemos ver que esse assunto é sempre abordado, entretanto com tão pouca atenção, é necessario um artista de grande influência ter um posicionamento. Ela realmente conseguiu levar uma mensagem para todos sobre o racismo, não senti que ela quis fazer apologia à violência, mas ela trouxe o empodeiramento para os negros não terem vergonha de suas raizes, e para finalizar o album dela esta incrivil e que mais artistas tenham essa atitude sem frisar em lucros.

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