Muitas das músicas de Beyoncé, desde os tempos de Destiny’s Child, trataram sobre empoderamento feminino, com músicas como Independent Women, Single Ladies, Run The World (Girls), entre outras.
Em Fevereiro
deste ano, Beyoncé lançou de surpresa o single Formation e, como não poderia
ser diferente, causou um frisson nas redes sociais e na crítica especializada por
apresentar uma postura diferente da apresentada em trabalhos anteriores.
Beyoncé parece finalmente estar engajada na questão racial, da qual foi sempre
questionada por um suposto processo de embraquecimento.
Mas isso não ficou impune, já que muitos torceram o nariz para o vídeo da música
no qual ela claramente denuncia o genocídio de jovens negros por parte da
polícia de seu país.
O programa
humorístico estadunidense Saturnday Night Live fez um esquete incrível, onde a
partir do clipe de Formation o mundo teria finalmente descoberto que Beyoncé é
negra. Genial! Cabe aqui a nota de que
faltam bons programas de humor como este na televisão brasileira.
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| Apresentação no Superbowl desse ano. |
Foi a vez
do Jornalista britânico Piers Morgan fazer duras críticas. Segundo Morgan, que
a entrevistou há cinco anos, usar as mães de jovens negros assassinados em um
dos seus vídeos seria mais um artifício para vender álbuns e “encher ainda mais
o bolso de dinheiro”. Em sua declaração, o jornalista disse também que preferia
Beyoncé “menos inflamada”, ou seja, menos engajada.
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| As mães de Michael Brown e Travyon Martin, assassinados por policiais nos Estados Unidos. |
Estaria
Beyoncé desautorizada de falar sobre o racismo apenas por não ter se envolvido
na militância anteriormente?
Vele
lembrar que a cantora Nina Simone em meados dos anos 60 foi uma das porta-vozes
na batalha pelos direitos civis dos negros norte americanos, ao lado de figuras
como Malcom X e Martin Luther King. Nina Simone usou a música como resistência.
Mississipi Goddam foi uma das músicas que inclusive chegou a ser proibida em
alguns estados, pelo seu forte conteúdo político em sua letra afiada com
direito a um palavrão, algo inadmissível para os padrões da época. Sua
militância lhe custou o estrelato, boicotada por diversos veículos, e quase lhe
custou a vida, já que muitas pessoas ligadas às lideranças do movimento pelos
direitos civis foram assassinadas.
Não estou querendo
dizer que se trata da mesma coisa, até porque os tempos são outros e os
mecanismos de racismo modificaram-se. E se Beyoncé pode fazer o que faz, é
porque houve no passado uma Nina Simone.
A eficiente equipe de Beyoncé:
Que
Beyoncé é a rainha do marketing, todos nós sabemos. Há uma excelente equipe por
trás da cantora que, quando não consegue blindar determinados “vazamentos” de
sua vida pessoal, usam-nos a seu favor fazendo com que lucre ainda mais com
isso.
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| Imagens do video de divulgação do remix de Flawless. |
No entanto, esse excesso de marketing na vida pessoal e artística de Beyoncé faz com que muitos não deem crédito à genuinidade de suas ações. Mas isso seria o suficiente para acusa-la de se apropriar de um tema tão delicado quanto a questão racial visando apenas o lucro?
Ativismo de conveniência?
Usar um tema
social como racismo para lucrar seria no mínimo perverso, mas infelizmente não
seria a primeira vez. Aqui mesmo no Brasil a grife UseHulk, do apresentador
Luciano Hulk, entrou de carona no caso do jogador Daniel Alves em 2014 e lançou
uma coleção de camisetas com o slogan “somos todos macacos”. Mais oportunismo
impossível!
Mas no caso
de Beyoncé, seria apenas uma questão meramente comercial? Arrisco o palpite de que
não, pois, uma vez no patamar de estrelato em que chegou, qualquer “batidão” de
pista de dança faria sucesso. Seu nome, por si só, vende! Outro fator importante
é a parceria com Kendrick Lamar na faixa Freedom, uma das que mais
incisivamente trata da questão racial no álbum. Kendrick é um dos grandes
ativistas negros nos EUA. Sua música Alright virou um hino de resistência em um
protesto em Cleveland, onde um menino de 14 anos foi preso. Acredito que
Kendrick Lamar não faria essa parceria com fins unicamente comerciais.
Beyoncé
não precisa da minha defesa, uma vez que como citado acima, há uma equipe muito
bem articulada para defendê-la de qualquer possível ataque da imprensa a
respeito de sua “nova” postura política ou qualquer outra situação que envolva
sua careira. A questão é, qual a legitimidade que esses críticos, em sua
maioria brancos, têm para definir o ativismo dela ou de quem quer que seja?
O
argumento de Piers Morgan que aponta uma Beyoncé apolítica há cinco anos atrás
é no mínimo frágil e sem sentido. A urgência da abordagem de determinados temas
vêm com o desenrolar dos fatos.
O debate
sobre a questão racial está novamente em ebulição nos EUA desde Agosto de 2014,
quando o jovem de 18 anos Michael Brown foi assassinado por um policial branco
na cidade de Ferguson, no estado americano de Missouri, acusado de roubar
cigarros em uma loja de conveniência, de acordo com um relatório contraditório
da polícia local. O episódio gerou inúmeros protestos. A mãe de Michael Brown,
inclusive, é uma das mães que aparecem em um dos vídeos de Beyoncé.
E o que
dizer sobre o caso da Igreja Africana Metodista Episcopal de Emanuel em
Charleston na Carolina do Sul, onde nove pessoas negras foram assassinadas por
um jovem branco de 21 anos?
Motivos
não faltaram nos últimos anos para que as pessoas que (talvez) não olhavam tão
atentamente para o debate racial, refletissem sobre o assunto. Esse pode ser o
caso de Beyoncé...
Davi de Oliveira - 03/05/2016
Referências:
Davi de Oliveira - 03/05/2016
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terça-feira, maio 03, 2016
Davi de Oliveira




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1 comentários :
muito bom o texto, talves foi um dos melhores argumentos e pontos de vistas usados em texto sobre esse tema, além de reflexão podemos ver que esse assunto é sempre abordado, entretanto com tão pouca atenção, é necessario um artista de grande influência ter um posicionamento. Ela realmente conseguiu levar uma mensagem para todos sobre o racismo, não senti que ela quis fazer apologia à violência, mas ela trouxe o empodeiramento para os negros não terem vergonha de suas raizes, e para finalizar o album dela esta incrivil e que mais artistas tenham essa atitude sem frisar em lucros.
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