John Ellis “Jeb” Bush, Rand Paul, Hillary Clinton, Scott Walker - os candidatos favoritos nas eleições primárias à presidência dos EUA são cheios das propostas de como “renovar a esperança americana”, “projetar os ideais americanos ao mundo”. Sabendo a necessidade da República de publicar matérias de cultura nerd, nostalgia da pátria amada, aqui lidaremos com menos sacanagem - as projeções para a política externa americana, baseada nos estudos do grande prepotente a quem vos escreve, e lembre-se de que, apesar desses não serem os únicos candidatos, considero esses os mais importantes, pois abarcam dois neo-conservadores, um sulista e parente dinástico e uma ex-secretaria de estado - a única mulher até então. Escolhi os mais propícios a serem eleitos para a próxima etapa das eleições, em 2016, de acordo com as intenções de voto.
Primeiramente, Jeb Bush tem seu irmão, George W. Bush, como seu conselheiro para as questões do Oriente Médio: é realmente interessante ter um sujeito que até os republicanos tentam manter sob uma espessa capa de invisibilidade, justamente para fugir da questão controversa da Guerra do Iraque? Pois bem, em uma entrevista dada à Fox News no início de maio, quando perguntado pela jornalista Megyn Kelly se “sabendo o que sabemos agora [das informações coletadas sobre a possibilidade de armas de destruição em massa no Iraque], você teria autorizado o ataque?”, Jeb não só confirma que o teria feito assim como afirma que Hillary Clinton, ex-secretária de estado para Obama (e talvez a corna mais famosa do mundo), no lugar dele ou de qualquer outro teria atacado o Iraque do mesmo jeito.
A questão da Guerra do Iraque é realmente muito difícil de ser confrontada, principalmente para um republicano e parente direto de um ex-presidente americano que perpetrou o conflito para descobrir, no final, que não havia nada do previsto a ser descoberto nos confins do estado muçulmano. Porém não houve nem jogo de cintura na resposta de Bush, o que lhe custou um mês inteiro tentando justificar sua resposta, primeiramente dizendo que havia ouvido mal a pergunta, depois convidando aliados para o defenderem, mas sua clarificação tardia terminou em “eu não sei exatamente o que eu teria feito”.
Too little, too late, o fato é que Jeb, de acordo com o que pode ser estudado no seu website, no site do congresso e nas matérias de política externa e entrevistas, deseja voltar à doutrina unilateral americana de seu irmão, moldar seu padrão único de reação a ameaças, tomar uma posição mais firme contra a Rússia na crise ucraniana enquanto intensificando a participação no conflito contra o Estado Islâmico (mais uma organização que deseja instalar o eterno e magnífico califado mundial na terra e o divino no céu, afinal eu nunca ouvi essa história antes), e sendo contra a suspensão do embargo econômico sobre Cuba. Mas a maior dúvida, em mim, é perguntar se é mesmo saudável para uma democracia uma dinastia de uma família na presidência: sério mesmo que é sensato colocar mais um Bush no poder, sendo que irmão e pai já haviam ocupado o mesmo cargo, com basicamente o mesmo perfil executivo de secretários? A família Bush pensa que sim…
Tendo-me satisfeito em achincalhar mais um Bush, passemos para Rand Paul e Scott Walker, que são os moderados entre os candidatos republicanos, além de mais novos e representando o neo-conservadorismo que precisa ganhar mais base com a juventude americana, mais disposta a se tornar democrata do que associada ao conservadorismo. Ambos concordam com uma ação mais firme contra as atitudes do governo de Vladimir Putin, atual presidente da Rússia, assim como uma mudança para uma política de balança - poder de árbitro no sistema mundial muito mais do que ator direto, beligerante, aproximar as partes hostis como Palestina e Israel sob o antigo desejo de um acordo de paz entre as partes.
Rand Paul, nesse caso, é direto: quer cessar qualquer apoio à Autoridade Palestina, pois ela “guerreia contra a cristandade no Oriente Médio”, trazendo ao mesmo tempo os dois à mesa - controverso por demais. Scott Walker também acredita no diálogo entre as mesmas partes, porém se vê aqui que realmente o que Walker mais faz é “pegar carona” no discurso dos outros - ele reconhece sua inexperiência em política externa e inteligência, trabalha com um grupo de conselheiros experts desse âmbito na sua campanha. Mais um ponto em que os dois podem concordar com o atual presidente é com relação a suspensão do embargo econômico sobre Cuba.
Quanto a Hillary, francamente com o segredo mais mal mantido da década (sua candidatura à presidência dos EUA), sua posição em política externa permanecerá semelhante a do atual presidente, ao meu ver, visto sua experiência como secretaria de estado e o desejo dos democratas de elegerem alguém com essa experiência. Mesmo suspeitando de que Obama é o tipo de pessoa que se diverte chupando gelo, sua atitude de retirar Cuba da lista de países que patrocinam o terrorismo reflete, e muito, sua política externa de “renovação da liderança americana”: dois estados que se hostilizavam desde o período mais perigoso da Guerra Fria (Crise dos Mísseis) resolvem cooperar, mesmo porque, diante das circunstâncias geográficas, ele estão condenados a conviver.
O Iran também serve de exemplo de como Obama limita a projeção militar do EUA no mundo, através dos acordos multilaterais que envolvem Arábia Saudita, Israel e Rússia na questão de limite da tecnologia nuclear em desenvolvimento no país, tudo para diminuir, na medida do possível, o custo de manutenção das forcas armadas americanas na região.
O problema desse custo é que, pasmem, EUA são o hegemon econômico mas necessitam renovar seus recursos domésticos no contexto pós-crise de 2008, em que os recursos energéticos americanos sofrem de tecnologia defasada, não podendo comportar a energia elétrica para o crescimento que o país almeja no futuro, Social Security (previdência social americana) que se tornará insuficiente em um mesmo período de tempo (tão ou mais vergonhoso quanto a nossa própria previdência hoje em dia) com a população mais velha, e um sistema de saúde que ja está há algumas DÉCADAS para ser reformado no congresso, tendo em vista as dívidas acumuladas pelos indivíduos que passaram por caros tratamentos nos hospitais e, ainda mais hoje, tem dificuldade de pagar por eles - o sistema de saúde americano não é preventivo, é reativo, se baseia mais no tipo de tratamento que o plano de saúde do paciente cobre do que no próprio paciente.
Portanto limitar a expansão militar americana, bem como a ação direta dos Estados Unidos nos cantos mais animados do mundo, a meu ver, não são por conta de Obama ser “socialista-petralha-soviético-subalterno”: é uma questão pragmática que remete à estabilidade interna do estado; caso contrário será menos possível manter a posição dos EUA no mundo. Obama, então, não se preocupa em manter um mesmo padrão de reação como Bush filho (Bushzinho), ao invés disso, utiliza o “dois pesos, duas medidas” - política unilateral com Cuba, e multilateral com Iran e Líbia.
Finalmente, os pontos em que todos realmente concordam e que podem ser base para forjar uma política externa na qual os dois maiores partidos políticos dos EUA cooperam é em reforçar a posição da OTAN no contexto atual, já que seu objetivo de impedir o avanço soviético é obsoleto no contexto pós-guerra fria, mas ainda causa grande receio por parte da Rússia, que se vê num cerco cada vez maior e mais perto do antigo território soviético (onde ela não arreda o pé), formado pela organização. Precisa-se aproximar a Rússia dos assuntos internacionais enquanto evitando que ela consiga mais poder geopolítico do que já tem: a Rússia, e todos que têm um mapa em casa sabem, é um pouquinho extensa, passa por áreas com vastas jazidas de recursos naturais das quais garante parte de sua receita anual, e como manter um país tão grande como esse tão pequeno nas relações internacionais? Reforçar a participação da OTAN diminui também a necessidade da presença unilateral americana, despende menos custos para a manutenção de seu aparato militar, desse modo o estado pode se concentrar nos problemas domésticos acima mencionados.
A reafirmação de Israel como aliada no Oriente Médio é outra afirmação, já que os EUA acreditam que, apesar dos pesares, Israel é a única democracia da região, e é responsável por manter a relativa estabilidade da região, e grande aliada na observação e contenção do Iran e Estado Islâmico também. A última é evitar ao máximo uma política isolacionista do governo americano, justamente por causa do medo da situação internacional se tornar uma crise tão grande, que apenas a participação direta dos Estados Unidos em uma guerra conseguiria restaurar uma ordem na qual todos poderiam consentir no mundo, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial. Os EUA não podem se isolar se procuram (e claro que procuram) se manter como o hegemon econômico e o estado vanguardista das questões liberais, ou seja, todos esses candidatos concordam que os EUA devem fazer uma militância pelo mundo, mesmo que não concordem com o método de fazê-lo. Pausa para um hambúrguer do McDonald’s em homenagem aos nossos candidatos Yankees.
Luiggi Guetti 5/06/2015
Luiggi Guetti 5/06/2015

sexta-feira, junho 05, 2015
Anita de Oliveira
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