sexta-feira, 12 de junho de 2015

Brasília: do Sonho à Realidade


Brasília é a capital do Brasil há 55 anos, conhecida mundialmente pela sua arquitetura moderna, é considerada patrimônio histórico da humanidade pela UNESCO. Uma cidade que foi planejada para ser capital e que até hoje é um dos maiores feitos da história do nosso país. Sua construção exigiu muita coragem do então Presidente Juscelino Kubitschek e sangue e suor dos trabalhadores.

Em 1956 JK foi eleito com a promessa de fazer o país desenvolver o equivalente a 50 anos em apenas 5. Em seu plano de metas, programa criado para impulsionar o crescimento, estava a construção de Brasília. Levar a capital do Rio de Janeiro para um lugar no meio do nada foi considerado loucura por muitos e teve forte oposição.

O projeto:
O Brasil, apesar de seu vasto território, estava espremido em seu litoral, todas as grandes cidades se encontravam na costa. A construção de Brasília vem junto com o objetivo de interiorização.  A centralidade do nosso distrito federal seria um ponto de ligação com diversas regiões , outro fator que contribuiu, foi pela região ter várias nascentes, que mantém rios cheios mesmo em períodos de seca. O projeto, por motivos geopolíticos, foi apoiado pelas Forças Armadas, que via uma capital no interior muito mais segura do que no Rio de Janeiro.

Oscar Niemayer, já conhecido na época, foi o arquiteto escolhido. Niemayer queria uma cidade do futuro, com uma arquitetura leve e fina.
Palácio do Supremo Tribunal Federal. Projeções dos pilares dão a sensação do palácio flutuar sobre o chão.
Para o desenho urbano um concurso foi aberto, que foi vencido por um desconhecido inscrito de última hora: Lúcio Costa.

 O projeto teria forma de um avião, com 2 eixos principais. As asas seriam o eixo rodoviário, onde ficariam os moradores. O eixo central, ou monumental, onde ficariam os prédios públicos. O interessante é que apesar dessa associação do desenho com um avião, Lúcio Costa não gostava dessa comparação, sempre a evitou.

A avenida monumental, localizada no eixo monumental, possui 12 pistas, a largura da avenida representa bem o projeto automobilístico de Juscelino. Durante seu governo, centenas de quilômetros de rodovias foram construídas, pois ele achava que o carro era o transporte do futuro, e que toda a população poderia ter seu próprio veículo. Por isso Brasília possui ruas largas e poucos semáforos, com o objetivo da boa fluência do tráfego.

A construção:

As construções começaram em 1956, com o prazo curtíssimo de erguer uma cidade do zero até 1960. Mais de 60 mil trabalhadores de todas as regiões do Brasil foram participar da construção da capital. Em 1957, Brasília já contava com cerca de 12 mil habitantes e com isso uma infra-estrutura de serviços básicos começou a nascer; transporte, escola, etc.

Quase desistência:
O empenho de JK para a mudança da capital foi de corpo e alma, durante os anos de construções, ele fez mais de 200 viagens para Brasília, mesmo assim seu sonho quase não se realizou. No último ano do prazo, muitas construções estavam inacabadas. Os trabalhadores, vivendo em condições muito ruins, estavam exaustos. O único hospital da época na cidade registrou cerca de 3200 feridos e 91 mortes, sendo que muitos acidentes não foram registrados. Para piorar, 6 meses antes do fim, a verba acabou. Para conseguir mais dinheiro Kubitschek recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas foi negado, pois o FMI queria que o país cortasse os custos por pelos menos 2 anos.

JK obviamente não desistiria estando tão perto da conclusão, mas os preços para sua persistência foram altos. A venda de títulos da dívida pública e emissão de moeda conseguiram a verba para terminar Brasília a tempo, mas em consequência disso o país viu um grande aumento das suas dívidas e da inflação. Um estudo realizado em 1969 indicou que o Brasil gastou cerca de 10% de seu PIB com as construções, um valor astronômico.

O Triunfo:
A oposição, descrente da mudança da capital, não fez barreiras no congresso para impedir as manobras de JK, pois achava que o projeto era fadado ao fracasso e que Brasília seria uma vergonha para o presidente. De fato, se Juscelino tivesse falhado seria lembrado com desprezo, mas a façanha de seu plano é o que ficou para seu legado.

A construção de uma cidade em menos de 4 anos, superando as expectativas da época, é sem dúvida um grande feito. Na inauguração de Brasília, em 21 de abril de 1960, foi realizada uma grande festa com mais de 250 mil pessoas, os olhos do mundo estavam apontados para o Brasil. Boa parte das pessoas presentes eram trabalhadores, que se orgulhavam (com todo o direito) do que construíram. O sentimento de orgulho e pertencimento fez com que muitos deles não retornassem as suas terras natais e acabassem se fixando por lá.

A nossa capital foi uma das maiores obras de arte do século XX e foi um símbolo do que os brasileiros são capazes. Cristovão Buarque, senador, compara a aventura da interiorização  para nossa história, com os desbravamentos das navegações para Portugal.

Questões sobre Brasília:
Palácio da Alvorada, um dos mais belos edifícios da capital.
Questionou-se muito o isolamento geográfico do governo, afastando-o do povo e dificultando a fiscalização, já que na época não existiam os canais de comunicação de hoje em dia. Outros defenderam que o isolamento traria benefícios de governabilidade, porque os políticos teriam mais tranquilidade para comandar o país, sem as pressões e agitações de uma grande cidade como Rio de Janeiro. O que sabemos é que o distrito-federal é uma obra inovadora e uma capital imponente, preparada para representar o Brasil. Niemayer sempre defendeu que você pode até não gostar de Brasília, mas não pode dizer que já viu algo como aquilo antes. Também sabemos que os políticos que trabalham lá talvez não estejam à altura do lugar, mas é importante lembrar que Brasília é o palco, não o elenco que atua.

O fato concreto é que a mudança da capital realmente interiorizou o país, hoje vemos um Centro-Oeste ocupado e que continua a crescer. Independente da aprovação de Brasília, JK é ou pelo menos foi um presidente adorado. Em 1976, durante a ditadura militar, Juscelino faleceu; muitos defendem que ele na verdade foi assassinado pelo regime, mas oficialmente a causa foi um acidente automobilístico. No seu enterro, o governo tentou fazer um funeral discreto, que acabou sendo um total fracasso, o sentimento de comoção se espalhou pelo país, e mais de 100 mil pessoas compareceram para se despedir do ex-presidente.

Brasília hoje:
Uma questão importante atual em Brasília é o de Preservar x Adaptar. Por ser patrimônio histórico da humanidade, qualquer reforma na capital tem que ser extremamente bem analisada, mas com o crescimento populacional, mudanças necessariamente terão que ocorrer.

Lúcio Costa planejou a capital como uma cidade-parque, com a meta de preservar o verde, onde se poderia ter acesso a estruturas básicas a pé ou bicicleta em meio a um local agradável. Planejamento este, que pode ser visto até os dias atuais. O problema é que a cidade foi planejada para ter uma população entre 500 e 700 mil habitantes, só que atualmente, conta com cerca de 3 milhões de pessoas. O crescimento populacional foi maior do que o esperado, os engarrafamentos se tornaram parte do cotidiano do brasiliense, o esgotamento dos serviços públicos é visível, no entanto a cidade continua a crescer. A maior parte dos trabalhadores das construções foi realocada para os arredores da capital, formando as chamadas cidades-satélites, que na maioria são pobres e violentas.

Brasília ainda polariza opiniões, os que se opõe falam do aumento da dívida e da inflação. Os que aprovam a mudança da capital defendem que os custos valeram a pena pelos benefícios trazidos, como a interiorização e a maior segurança. Se Brasília deu certo ou não, fica a sua escolha. Porém, há de se reconhecer que erguer uma cidade pioneira na década de 50 em menos de 4 anos é impressionante. Sempre que se desacredita da capacidade dos brasileiros, deve-se lembrar de Brasília, que está aí até hoje para nos lembrar, que sim, nós podemos.
Vista atual de Brasília, onde se é possível ver os 2 eixos da cidade.

Leonardo Teixeira 12/06/2015

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