quarta-feira, 25 de maio de 2016

Qual é a graça?


No último mês de Março, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em entrevista a um programa matinal da rádio Jovem Pan fez alguns comentários sobre a televisão atual, mais precisamente sobre a Rede Globo, onde trabalhou por muitos anos e foi um dos responsáveis pelo chamado “padrão Globo de qualidade”.


Boni no programa Morning Show da Rádio Jovem Pan.
Um de seus comentários me chamou bastante atenção, no qual ele afirma que o “humor da TV brasileira foi para o espaço” e que o grande problema do programa de Marcelo Adnet é que “ninguém entende” as piadas. Fiquei bastante pensativo depois dessa reportagem... Se o humor da TV brasileira foi para o espaço, isso quer dizer que no passado já tivemos humor de qualidade? Se ninguém entende as piadas de um programa nos moldes do Tá no Ar - A TV na TV, isso quer dizer que as boas piadas nos programas de humor na TV aberta precisam ser mais óbvias?

Possivelmente, para tais afirmativas, Boni tem embasamento, afinal estamos falando de um dos grandes nomes da TV nacional, frequentemente ouvido e respeitado por profissionais da área! Entretanto, se pensarmos com calma, podemos lembrar de controvérsias como a manipulação do debate presidencial de 1989, algo que anos depois foi admitido por ele. Bom, talvez isso seja o suficiente para, apesar de sua experiência e talento, não considerarmos suas afirmativas como verdades inquestionáveis.

Antigos humorísticos da Rede Globo e o mais recente e também extinto Zorra Total.

Procurei algumas coisas dos humorísticos do passado, programas como O Planeta dos Homens, Balança Mais Não Cai, Satiricom, Viva o Gordo, entre outros. É inegável o talento desses que construíram a linguagem do humor televisivo que (pasmem!) é utilizada até os dias atuais.  As mesmas piadas e esquetes são praticamente iguais. Quadros criados por nomes como Jô Soares e Chico Anysio são reproduzidos à exaustão até hoje.  A Praça é Nossa é um bom exemplo de como o mesmo formato pode perdurar na TV sem nenhuma novidade: de 1957 para cá, passagem por várias emissoras e o mesmo conteúdo.


A Praça é Nossa: Nenhuma alteração de formato desde de sua estréia na TV Paulista.
Algo perceptível nesses vídeos antigos é a pobreza de seus roteiros, lotados de estereótipos por todos os lados. A mulher bonita e burra, o gay afetado, o negro malandro e caricato, o pobre ignorante, algumas interpretações políticas e bordões: muitos bordões! Esses tipos sustentaram o humor na TV brasileira ao longo do tempo.

Foi nesse momento que tive um insight e fiz uma conexão entre a fala de Boni e o mais novo bordão reacionário das redes sociais: “o mundo anda muito chato!”

Essa frase tem sido repetida inúmeras vezes sempre que grupos sociais oprimidos não aceitam ser alvo fácil desse tipo de humor ou ataques mais sérios. Em entrevista à revista Playboy, Renato Aragão falou da dificuldade de se fazer humor na atualidade ao aludir que negros e homossexuais, por exemplo, não se ofendiam com determinadas piadas. Já Danilo Gentilli, do SBT, diz que há uma “patrulha do politicamente correto”, organizada, inclusive.

Não há como afirmar se as pessoas não se ofendiam como disse Renato Aragão, mas é certo que a consciência e o empoderamento das minorias têm crescido e tomado corpo e voz. Com isso passou-se a enxergar que nem toda a piada tem graça, uma vez que para fazer rir é necessário subjugar o outro.
A grande pergunta que fica é: o mundo está chato porque oprimir está mais difícil?

Esses humoristas, que tanto têm se queixado da dificuldade de fazer humor, precisam se reinventar. Nós precisamos ser mais educados no que diz respeito à lida com o outro. Perpetuar estereótipos preconceituosos não ajuda em nada, ao contrário, contribui para que sejamos cada vez mais intolerantes.

Pode ser que o Boni tenha razão. Pode ser que as pessoas ainda não entendam o formato do humor do Tá no Ar - A TV na TV, ou do Porta dos Fundos, ou dos programas de humor da extinta MTV Brasil. Mas espero que esse seja o momento onde tomemos a consciência de que podemos rir do que realmente é engraçado, sem precisar apelar para o óbvio e para a ridicularizarão do próximo.

Davi de Oliveira - 25/05/2016

Referências:






1 comentários :

Unknown disse...

Muito bom texto!!! Parabéns!!!!

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