sexta-feira, 18 de março de 2016

A crescente intolerância no Brasil


No dia 13/03/2016, por um dos maiores protestos de nossa história, as redes sociais tiveram uma avalanche de comentários, tanto apoiando, quanto criticando o ocorrido. Como de praxe, o facebook virou um grande “show” de comentários precipitados, passionais e irracionais. No entanto, esse “show” não tem ocorrido apenas com os protestos, mas sim há muito tempo. O país vive uma polarização radical entre a população, e qualquer posição radical é perniciosa. Nem entrarei nos casos extremos que terminaram em agressão; embate físico por divergência política é algo tão primitivo que nenhum dos envolvidos pode estar certo. O que vemos nos últimos tempos, é o povo brasileiro ser resumido em pobres contra ricos, o bem contra o mal. Esse maniqueísmo é infantil e irreal, qualquer nação tem diversas camadas sociais, nenhuma delas homogênea.

Agressões entre pró-PT e anti-PT se tornaram corriqueiras. Uma pessoa com o minímo de consicência política, jamais faria ato tão animalesco. Nosso povo precisa entender que as mudanças são movidas pelas ideias, não pelo braço. (Foto: Sérgio Castro/Estadão Conteúdo)

Muitos repudiaram os protestos por ser um movimento da “elite”, outros porque figuras como Bolsonaro e Malafaia estariam presentes. Em relação a primeira crítica, tentou-se resumir todo o movimento nas ruas em um embate dos ricos contra Dilma e o PT. Antes de tudo, nas últimas eleições presidencias, Aécio Neves teve 48% dos votos no segundo turno, atualmente 90% da população reprova o governo de Dilma, logo, essa dicotomia não faz o menor sentido. Outro problema é querer deslegitimar os protestos pela aparição de figuras políticas, que querem sair como heróis nesse período. Geraldo Alckmin e Aécio Neves foram as ruas de São Paulo no dia 13 e não conseguiram discursar, tiveram de sair sob vaias e gritos de oportunistas e ladrões. Isso aconteceu em São Paulo, onde a renda é muito maior que no resto do país, mostrando que o movimento das ruas não teve nada a ver com “elite”, PSDB, ou qualquer outro partido, na verdade os próprios tucanos vêm perdendo popularidade em pesquisas eleitorais.

Alguns aplaudiram e ovacionaram os tucanos, mas Aécio e Alckmin não conseguiram discursar sob vaias e ofensas e acabaram ficando menos de 30 minutos no protesto. (Foto: Filipe Araújo/Estadão Conteúdo)

O “endeusamento” do Juiz Sérgio Moro e o apoio incondicional a órgãos públicos que tem reputação bem duvidosa, também está completamente errado. Eles estão fazendo apenas o trabalho deles, a questão é que como no Brasil as instituições estatais geralmente são tão ineficientes, que quando elas fazem o que deveriam fazer, são aclamadas pelo povo.

Uma crítica feita sobre os protestos foi a de “indignação seletiva”, em meios há tantos escândalos políticos, a mídia e as pessoas só focam em Lula e Dilma. Tal afirmação é verdadeira, não se viu um “fora Cunha”, não se viu um “Aécio na cadeia”, pois eles estão sendo indiciados por corrupção também. No entanto, esse não é um problema exclusivo do Brasil, quando atentados terroristas ocorreram contra o jornal Charlie Hebdo e contra a população de Paris, todos “fomos Charlie”, todos “fomos Paris”, mas quando ouve o massacre de 147 pessoas em uma universidade em Garissa, ninguém “foi Quênia”. Ninguém “foi Ancara” em nenhum momento entre os diversos atentados ocorridos lá. Ninguém colocou a bandeira desses países em seu perfil no facebook. Essa “indignação seletiva” existe em todos os lugares, e no protesto brasileiro é tão ruim e excludente como em qualquer lugar.

É inegável o sensacionalismo que a impressa vem fazendo, já entrevistaram até o chaveiro que abriu o tríplex no Guarujá para a Polícia Federal, perguntaram para ele quanto custou o serviço, para quem tem curiosidade nesse dado inútil, foi cobrado R$ 100. Tudo é motivo de notícias, se tira leite de pedra para vender manchetes. Além disso, houve um completo esquecimento de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Aécio Neves na mídia, toda a corrupção do país é culpa do PT.

Esse embate Esquerda x Direita não faz o menor sentido. São conceitos ultrapassados e completamente distorcidos ao longo do tempo. Ambos os lados são passionais e usam de qualquer artefato para defender sua visão. O caso da babá, Maria Angélica Lima, fotografada nos protestos é um grande exemplo disso. Criou-se uma grande arruaça em volta de uma pessoa que não queria ser exposta e estava lá fazendo o seu trabalho.

Foto da babá Maria Angélica Lima que viralizou na internet. (Foto: João Valadares/CB/Da Press)

Chamaram a babá de tudo, desde escrava oprimida pelo patrão, até símbolo da elitização do movimento de 13 de março. Até que finalmente pararam de especular e deram uma chance dela falar. Se descobriu que ela apoiava os movimentos nas ruas, e que ela votou em Aécio Neves nos dois turnos das últimas eleições. Além disso, Maria Angélica disse gostar de seu trabalho, pois durante a semana ela tem tempo livre para cuidar dos filhos. Citar o Aécio, não chega nem perto de defendê-lo, quem sabe ele não divida uma cela com Lula na prisão, apenas citei o voto de Maria para mostrar como essa separação entre tucanos e ricos contra Dilma/PT e pobres não existe. 

De fato, haviam pessoas ignorantes nas ruas no domingo passado, o PT não é Messias Salvador, muito menos o PSDB, sem falar do camaleão PMDB. Mas atos, como as vaias contra políticos oportunistas, além de diversos cartazes repudiando, tanto, partidos da oposição, quanto da situação, mostraram a neutralidade da maioria dos protestantes. Isso dá esperança, há um desejo crescente de reforma na política e no modo de pensar desse país. Ainda pensamos como crianças, achamos que o mundo é um filme da Disney, se resume em princesa contra bruxa, bonzinho contra malvado, rico contra pobre, esquerda contra direita, um bando de bobagem passional e totalmente fora da realidade.

A nomeação de Lula para chefe da Casa Civil, independente de assumir o cargo efetivamente ou não, apenas deve aumentar essa polarização e a efervescência que o país está vivendo, esperamos que mudanças benéficas venham para o Brasil após isso tudo, que as pessoas se conscientizem mais e percebam a responsabilidade do voto, para que o gigante não acorde de novo como fez em 2013, e volte a dormir deixando tudo como estava.

Leonardo Teixeira - 18/03/2016

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Matéria sobre ataque no Quênia: http://brasil.elpais.com/brasil/2015/04/02/internacional/1427960494_039424.html
Matéria sobre a hostilização de Aécio e Alckmin: http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2016/03/alckmin-e-aecio-sao-hostilizados-na-chegada-manifestacao-na-paulista.html
Entrevista com a babá Maria Angélica Lima: http://extra.globo.com/noticias/rio/o-pobre-que-sofre-diz-angelica-baba-de-foto-polemica-em-manifestacao-rv1-1-18876978.html

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