sexta-feira, 1 de abril de 2016

Brasil e Grécia: Semelhanças de uma Crise


O Brasil vive uma crise econômica, enquanto a Grécia vive um colapso econômico, a situação dos dois países é muito diferente, no entanto, ambos possuem claras semelhanças, desde políticas fiscais irresponsáveis, até dificuldades em cortar gastos. O principal motivo disso não é uma afinidade entre o brasileiro e o grego, e sim porque as recessões econômicas em geral têm diversas similaridades, mesmo que em diferentes proporções. Veremos mais para frente como crises não possuem nenhum mistério, muito pelo contrário, geralmente se anunciam muito antes de acontecer. Porém, antes disso, vamos fazer uma rápida análise do caso grego:

A Grécia não produz um superávit primário desde 1971, há décadas o país já vem se endividando. Ao contrário do que muitos pensam, essa dívida já vinha crescendo antes mesmo dos gregos aderirem a zona do euro. Ao entrar para União Europeia, no primeiro momento, eles se beneficiaram de maior acesso ao crédito, fazendo ainda mais empréstimos, no entanto, uma hora a conta teria de vir. A gastança, muito acima do que a economia suportava, agora castiga a nação.

Os gastos públicos chegaram a 60% do PIB e a máquina pública é uma das mais inchadas do mundo. Antes da crise de 2008, 10% da população, o que correspondia a 20% da força de trabalho, eram funcionários públicos. O Estado foi de regulador à personagem central, tanto da economia, quanto da vida das pessoas. Com tanta gente trabalhando para o Governo, casos bizarros como 40 motoristas para um carro, se tornaram corriqueiros. Para piorar, a excessiva quantidade estava longe de se tornar qualidade, a educação pública, super inchada também, tem um dos piores resultados da Europa.

O salário de um servido público na Grécia, é em média 50% maior do que um servidor do setor privado, além do primeiro receber diversos bônus e mordomias. No Brasil, estamos nesse caminho, cada vez mais pessoas abdicam do setor privado para concorrer à vagas públicas. Muitos jovens recém-formados sequer procuram trabalho em empresas privadas, já vão direto concursar, em busca de estabilidade, bons salários e diversos benefícios. O resultado disso é uma máquina pública brasileira obesa e improdutiva, assim como a grega.

Pessoas estudando para concursos públicos, muitas deixaram o emprego para se dedicar exclusivamente aos estudos. Matéria exibida no Bom Dia Mato Grosso da Rede Globo: http://g1.globo.com/mato-grosso/bom-dia-mt/videos/v/concursos-publicos-atraem-candidatos-que-buscam-bons-salarios-e-estabilidade/4747859/
O grande problema nessa questão é que, em setores em que o Estado se mete, a iniciativa privada tende a morrer. É muito mais vantajoso trabalhar para o Governo, pois, a demissão é praticamente impossível, além de também não haver uma grande projeção para a pessoa ser promovida e crescer dentro de sua função. Logo, não há incentivo para ser produtivo, algo que é essencial não apenas para empresas privadas, mas também para o crescimento da economia e do país como um todo. Não é nem necessário falar dos tipos de serviços públicos que temos à nossa disposição, órgãos como o DETRAN, estão sempre cheios de funcionários motivados a fazer um trabalho cada vez melhor para a população.

A previdência social, bomba relógio aqui, já estorou lá. São muitos aposentados, que certas vezes pararam de trabalhar muito cedo, para pouca força de trabalho. Nosso povo ainda é bem mais jovem que o europeu, mesmo assim, já temos um grande problema econômico nessa questão. Se reformas não forem feitas, no futuro, quando atingirmos a mesma pirâmide etária que a deles, teremos um déficit enorme, um buraco muito similar ao da Grécia.

Outros fatores nos assemelham aos gregos. Obras públicas, em ambos os países, são uma verdadeira festa de lobismo e desvios.

TCE-RJ em 2014 apontava superfaturamento de pelo menos R$ 67 milhões. (Cezar Loureiro/14-05-2013 / Agência O Globo) Matéria OGlobo: http://oglobo.globo.com/esportes/tce-rj-aponta-superfaturamento-nas-obras-do-maracana-12208074
O Maracanã, entre várias outras obras, teve escândalos de superfaturamento, custou mais de 1,2 bilhões de reais, seria mais barato construir um estádio do zero do que reformá-lo! Na Grécia, a olimpíada de Atenas tem valores incertos pelo tamanho do custo que teve, pelo menos 12 bilhões de dólares foram gastos. Agora, diversas estruturas estão abandonadas.

Piscina na Vila Olímpica de Atenas em agosto de 2014. Estádios em Brasília e Manaus, onde ocorrem poucos eventos esportivos podem acabar assim. (Agência Getty Images) Matéria no Globo Esporte: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/2014/08/dez-anos-depois-instalacoes-dos-jogos-de-atenas-estao-abandonadas.html
Historicamente eventos como copa do mundo e olimpíadas não dão lucro, o turismo não é suficiente para recuperar o que foi gasto, no entanto, a infraestrutura erguida deixa uma herança para a população, como houve em Londres, porém em países mais vulneráveis a corrupção, o único legado é o rombo nas contas e monumentos caindo aos pedaços.

A Grécia também negou a crise. Por muito tempo os governantes esconderam o gigantesco déficit das contas, e obviamente se recusaram a reconhecer o problema. Quanto mais se demora para combater uma recessão, mais ela se espalha e se agrava, assim como uma doença não tratada. No Brasil, o máximo que conseguimos em 2015 foi um: “Não tenho como garantir que a situação em 2016 será maravilhosa”, dito por Dilma Roussef.

"Sempre que especularam, não se deram bem. Acho muito perigoso especular em situações eleitorais", afirmou Dilma em julho de 2014. Naquela época os problemas já eram visíveis, mas preferiram negá-los ao invés de enfrentá-los. (Pedro Ladeira/Folhapress) Matéria da Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1492376-dilma-nega-crise-economica-e-garante-inflacao-dentro-da-meta-em-2014.shtml
Da mesma forma que crises não são tão misteriosas, as soluções também não. Obviamente, a economia não é algo exato, muito longe disso, não se pode ter 100% de precisão, fatores inesperados ocorrem, coisas como o valor das commodities e do barril de petróleo não são fáceis de prever, basta ver a quantidade de previsões erradas na mídia. No entanto, certos métodos para melhorar a economia, como enxugar gastos desnecessários é algo óbvio e essencial. Na Grécia, o salário mínimo está acima do de muitos vizinhos, que por sinal são muito mais ricos, o salário do funcionário público grego em média é muito maior do que o do alemão, que trabalha em um país economicamente muito mais sólido. Esses gastos excessivos e insustentáveis, aliado a uma dívida que já está acerca de 180% do PIB, fruto de mais e mais empréstimos irresponsáveis, cobraram o seu preço. Assim como no Brasil, a festa acabou, a bonança já não pode ser mais sustentada.

Nem tudo é culpa dos gregos, eles tomaram imposições austeras duríssimas que sacrificam muito a população, e são difíceis de serem realmente aplicadas. Tais imposições poderiam ter sido evitadas, não fossem décadas de um estilo de vida fora da realidade da Grécia. Além disso, como o economista Paulo Nogueira Batista Jr já escreveu, a zona do Euro lembra um pouco o padrão ouro antigo, do século XIX e XX, onde se perdia autonomia na política monetária, portanto, os gregos têm de reagir a uma crise sem poder mexer no câmbio, o que certamente torna a situação mais difícil.

No entanto, há solução, a Grécia possui bilhões de dólares em ativos públicos, além disso, milhões de dólares podem ser poupados fazendo uma arrumação básica no orçamento público. Com um governo mais enxuto, funcional, menos corrupto, as contas vão melhorar, e quando começar a reduzir a dívida, a confiança dos credores e do povo em geral será restabelecida, o que até permitirá renegociar os empréstimos em acordos melhores. Não existem vilões nessa história, a Alemanha não quer que a Grécia quebre, nem os credores, afinal, eles querem ser pagos, mas mudanças drásticas tem de ser feita.

Os dois países vivem crise política também, independente se a crise econômica gerou a política ou vice-versa, é fato que a alta do desemprego e a recessão desestabilizaram os governos. Basta ver como o mensalão, outro caso de corrupção, não teve tantas implicações, afinal, o Brasil vivia boa fase econômica naquele momento, o que aliviou o escândalo. Se vivêssemos um outro crescimento agora, provavelmente a lava-jato não teria toda essa atenção e pressão por resultados. Recobrar a confiança da população é essencial, uma economia não cresce se as pessoas não acreditam que ela pode crescer, portanto, punir os criminosos certamente será de grande ajuda. Com a confiança geral mais elevada, mais estabilidade ao governo será dada, ao passo que mais estabilidade política também facilita a economia se reerguer, logo, ambas estão ligadas, é uma via de mão dupla.

O Brasil possui economia muito mais sólida do que a grega, além disso, estamos longe de ter uma crise e uma dívida como a deles. Não vivemos décadas de gastos irresponsáveis, e sim apenas alguns anos. Portanto, se a Grécia que está muito pior tem solução, para nós é muito mais fácil sair desse buraco, basta assumir o problema e enfrentá-lo, fazendo isso, em 2017 já estaremos em rumos melhores.


Leonardo Teixeira - 01/04/2016

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