quinta-feira, 3 de março de 2016

O que eu ví no Japão: Mitos e Verdades


Tive a oportunidade de passar um mês e meio em Tóquio, não foi tempo suficiente para dar uma resposta definitiva a cerca dos costumes nipônicos, mas pelo menos posso dar minhas impressões. Uma das melhores coisas da viagem foi poder ver na prática se a imagem e os estereótipos são verdadeiros ou não. Portanto, aqui escreverei sobre o que é mito e o que é real, também coisas boas e ruins do Japão. Também é importante enfatizar que este texto irá fazer generalizações, e como toda generalização peca em superficialidade, não pense que tudo dito aqui é absolutamente verdade e se aplica para todos os japoneses.

Os japoneses são frios:
Esse é um mito que se escuta muito, que os japoneses são frios e distantes. Isso acabou se mostrando uma total mentira durante minha vivência por lá. Eles são receptivos, animados, gostam de sair com os amigos e bater muito papo. Obviamente os asiáticos não são calorosos como os brasileiros, afinal, eles não costumam se tocar muito, mas isso não significa que eles não tenham afeição uns pelos outros. Na verdade, acredito que o principal motivo por eles se abraçarem pouco, é por causa da timidez. Muitas vezes quando comentava como nos cumprimentamos no Brasil, não hesitavam nem um pouco em me abraçar.

O Japão é cheio de regras:
Sempre imaginei que o leste oriental era todo regrado e restritivo, acredito que muitos estrangeiros pensaram isso também. De fato, o país possui diversas regras, mas muitas delas nem são constituicionais e sim culturais. Os japoneses são extremamente educados e possuem uma grande preocupação em não incomodar as outras pessoas, mas isso não restringe de forma alguma a sua liberdade. Enquanto em países como Canadá, não se pode beber na rua, só se compra bebidas em lojas estatais e os bares não podem servir álcool após as 2 da manhã; no Japão não existe nenhuma dessas restrições, os japas adoram beber cerveja e sakê, ir para o karaokê, fazer pequenas sociais em casa, totalmente diferente da imagem “quadrada” que eles possuem.

O transporte e os serviços são excelentes:
Tóquio possui o maior metrô do mundo, que além disso é extremamente pontual. O transporte é tão bom, que muitos japoneses sequer tiram carteira de motorista. Nos serviços o padrão é o mesmo, rápido e de qualidade. Os restaurante te atendem com educação e atensiosidade. Lá você não paga nem pelo serviço, muito menos por gorjeta, o dono do estabelecimento é responsável por pagar um sálario decente aos seus funcionários, enquanto em diversos países os garçons praticamente tem de sobreviver com o que ganham por fora. Na terra do sol nascente também descobri o verdadeiro significado de “fast food”, o preço e a qualidade deles é muito acima dos “slow foods” que temos aqui.

Eles se vestem de maneira exótica:
Até vi alguns casos curiosos, no entanto, qualquer país tem “seus excêntricos”. No geral, eles se preocupam muito com a aparência, cuidam da pele e do corpo e se vestem muito bem, por isso, costumam ser bem elegantes. A juventude nipônica muitas vezes sofre com a obsessão da beleza, mas isso é algo que essa geração vem sofrendo em todos os lugares do mundo, então não vejo motivo para me aprofundar nesse assunto agora.

Eles desenham olhos grandes porque queriam tê-los:
Coloquei aquela figura no topo do texto para este tema, como todos sabem, nos animês, os personagens costumam ter olhos enormes. É muito comum se falar que a razão disso é o desejo deles de possuir tais atributos, e curiosamente é verdade. No Japão descobri que eles realmente gostam disso, eles consideram olhos grandes um sinal de beleza, ainda mais se possuirem cores mais incomuns, como verde e azul.

Agora irei falar de aspectos negativos da terra nipônica, afinal, não existe lugar perfeito.

O cigarro:
Essa provavelmente é a minha maior crítica nesse texto. Os japoneses estão muito atrasados na maneira que lidam com o cigarro. Talvez por ser brasileiro, seja mais crítico a isso, pois o Brasil é um dos países que está mais a frente nesse assunto, nosso cigarro é barato (comparado a outros países), mas mesmo assim o consumo cai ano após ano. O tabaco deixou de ser símbolo de elegância e a própria juventude o rejeita cada vez mais, resultado disso é que não existe mais áreas para fumantes há anos. Enquanto isso do outro lado do mundo, fuma-se muito, mesmo com o preço do maço alto. Ainda existe área de fumantes, e elas estão presentes em muitos restaurantes, alguns deles nem separam os não-fumantes, portanto, se você não fuma, é bem capaz de em algum momento você ficar respirando fumaça dos outros. Apesar do consumo estar caindo, eles ainda estão muito atrás nesse aspecto, como muitos fumam em lugares fechados e bares, há um grande estímulo para que novas pessoas experimentem. O maior absurdo são os garçons e garçonetes terem que trabalhar no meio desses ambientes. Em lugares como Brasil, Estados Unidos e Canadá, é proibido colocar funcionários nestas condições que ao longo prazo podem acarretar em graves problemas de saúde, porém no Japão, um país tão desenvolvido, pessoas ainda são obrigadas a trabalhar assim. Não tenho nada contra fumantes, é uma escolha pessoal, mas não acho correto os outros acabarem se tornando fumantes passivos por terem que viver nestes locais.

Eles não falam inglês:
Eles não falam mesmo, e isso se aplica a gigantesca maioria. Os japoneses que são fluentes no inglês acabam sendo admirados. É até paradoxal, a língua japonesa é cheio de palavras oriundas do anglo-saxão, e eles adoram a cultura americana, isso até os possibilita entender certas perguntas simples, mas aprender efetivamente o idioma é raro. Pelo menos eles são bem pacientes com estrangeiros e se esforçam ao máximo para se comunicar. Acredito que isso seja resquício do isolacionismo cultural que o Japão ainda possui. Afinal, apenas no século XX os japoneses se abriram efetivamente para o mundo, e apesar de serem muito receptivos, eles têm resistência a certas mudanças.

Alguns possuem a mente fechada:
Pude conhecer diversas pessoas em minha viagem, e de fato, alguns não têm muito interesse no que acontece fora do eixo leste-sudeste asiático. Eles defendem que o Japão é o melhor país do mundo, e portanto, não tem motivo para sair de lá. Uns amigos norte-americanos até que se parecem com eles né? Não acredito que exista um melhor lugar no planeta, a sua imensidão e diversidade é a sua graça, pois, mesmo com o Japão sendo um país incrível, ainda há tanto para se conhecer afora. Essas pessoas mais fechadas, claramente ainda possuem esses resquícios isolacionistas. Obviamente, esse grupo representa apenas uma parcela da população, que por sinal está diminuindo, a juventude é cada vez mais interessada no ocidente. É importante enfatizar que essas críticas não estão de maneira alguma defendendo a abdicação da cultura japonesa, que é fortíssima, bela e super interessante, afinal, você não precisa deixar as origens para poder viver novas experiências inter-culturais.

Concluindo..
Seja para visitar ou morar, o Japão é um país maravilhoso, que possui seus defeitos, mas no geral possui muito mais qualidades. Se hoje o país é pró3spero, foi porque se desenvolveu muito no último século, pois, eles já foram uma nação muito mais pobre, onde muitos não acreditariam no patamar que alcançaram atualmente. Logo, não existe povo condenado ao fracasso, não existe povo “preguiçoso”, todos podem se desenvolver se a oportunidade for dada, e quem sabe isso não aconteça também na terra do futebol e do samba.
No século XIX, um estrangeiro no Japão escreveu:

“Rico não acreditamos que ele (o Japão) algum dia será. As vantagens proporcionadas pela natureza, com exceção do clima, e o amor das próprias pessoas pela indolência e pelo prazer não permitem que isso aconteça. Os japoneses são uma raça feliz e, contentando-se com pouco, provavelmente não conseguirão muito.”


Leonardo Teixeira - 03/03/2016

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